24/01/2005

Isto será Genérico?

Leio nas noticias locais que a indústria farmacêutica Labesfal foi vendida ao grupo alemão Fresenius, líder europeu na investigação, produção e distribuição de produtos injectáveis para hospitais. Será a mesma empresa que em Julho, com pompa e circunstância e com a presença do Presidente da República celebrou com o Estado Português um contrato de apoio financeiro? Será a mesma empresa que assumiu a importância estratégica da industria farmacêutica para Portugal perante essa mesma possibilidade de apoio?
Ora leiam os discursos desse dia in Voz das Beiras:
No passado dia 29 de Julho, a Labesfal dotou o seu Complexo Industrial, em Lagedo(Tondela), dedicado especificamente à produção de medicamentos antibióticos, de uma unidade destinada ao fabrico de medicamentos Genéricos. A inauguração foi presidida pelo Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, tendo também pontuado a presença do Ministro da Saúde, Dr. Luís Filipe Pereira; (...). Joaquim Coimbra, presidente da empresa, no seu longo discurso (...), lembrou: “No dia 25 de Fevereiro de 1999, Vossa Excelência, Sr. Presidente, concedeu-nos a elevada honra de visitar a primeira unidade fabril construída neste Complexo Industrial, unidade essa dedicada especificamente à produção de Antibióticos”. Na altura “defendeu Vossa Excelência, de forma clara e inequívoca, a necessidade de Portugal implementar, decisivamente, a opção pelo desenvolvimento dos Medicamentos Genéricos, como medida elementar de racionalização económica na Saúde.Mas disse V.Exa. também, Senhor Presidente, que Portugal tinha “uma clara deficiência de resposta na produção de medicamentos”. Por isso, lançou-nos um desafio: Construir, aqui no interior do país, uma unidade de referência em produção de Medicamentos Genéricos. Pois bem, Senhor Presidente. Aqui está ela. A Unidade de Produção que Vossa Excelência acaba de inaugurar pretende responder ao desafio que nos lançou. O futuro dirá se ela cumpriu a missão que lhe atribuímos. Se for esse o caso, como acreditamos, Portugal estará mais rico e mais independente num sector vital para a qualidade de vida dos portugueses. A indústria farmacêutica portuguesa terá consolidado a sua capacidade de inovação e o seu elevado nível tecnológico. E é aí que continuará a sustentar a qualidade e a competitividade do medicamento fabricado em Portugal”. (...) Esta unidade industrial, do modo como está inserida na indústria farmacêutica nacional, cumpre e realiza a sua função estratégica para Portugal. Hoje já ninguém questiona que a industria farmacêutica, de base produtiva nacional, se reveste de interesse estratégico para qualquer país. Mas Portugal, ao longo dos últimos anos, tem vindo a assistir ao desaparecimento gradual da sua indústria farmacêutica verdadeiramente nacional, que foi sendo progressivamente substituída por meros operadores comerciais de importação. Se nada tivesse sido feito por alguns, muito poucos, Portugal estaria hoje totalmente dependente e à mercê do fraco interesse que um minúsculo mercado representa para as gigantescas companhias transnacionais. A Labesfal reagiu contra esse destino, essa quase fatalidade. (...) Por último Joaquim Coimbra disse estar empenhado na continuação dos seus projectos. “O complexo industrial que aqui foi construído demonstra que a indústria farmacêutica nacional resiste e não se rende”. Trata-se de um projecto que “assegura qualidade e competitividade, reafirmando a autonomia do país num sector estratégico, essencial para a vida dos portugueses. Este projecto pode libertar Portugal de dependências externas, de flutuações ao sabor do jogo estratégico das poderosas multinacionais do sector, para cujas opções nada contam os interesses de um minúsculo mercado, como é considerado o nosso país. Portugal não pode continuar a assistir passivamente ao desaparecimento da sua indústria verdadeira nacional e à transferência para países terceiros de capacidades produtivas e centros de decisão que aqui estavam instalados. Portugal não pode, num sector fundamental ao bem-estar social, continuar a transformar-se rapidamente num país de meros agentes comerciais, perigosamente dependente de estratégias e interesses externos”.
No dia seguinte, o Conselho de Ministros de 30 de Julho na reunião que teve lugar no Palácio do Freixo, no Porto, aprovou os seguintes diplomas:
(...)
5. Resolução do Conselho de Ministros que aprova a minuta do contrato de investimento e respectivos anexos, a celebrar entre o Estado Português e a Labesfal - Laboratórios Almiro, S.A., para a realização de um projecto de investimento em Tondela.
A LABESFAL, através do presente projecto de investimento, reforçará o seu estatuto de parceiro estratégico para as Autoridades Nacionais de Saúde, no âmbito da política do medicamento, pois promoverá a inovação e a competitividade, incrementará o seu esforço de orientação para a qualidade, numa lógica de reforço dos seus critérios de excelência e reforçará a introdução de medicamentos em mercados externos, mais concretamente, em Espanha, Cabo Verde, Moçambique, Tunísia e Costa do Marfim.
Os investimentos a realizar têm por base a aquisição das Melhores Tecnologias Disponíveis (MTD's), garantindo que a empresa possa ser uma referência para a indústria farmacêutica.
O investimento a realizar pela L
ABESFAL tem um elevado impacto na região em que se insere, contribuindo para o desenvolvimento industrial da Zona Industrial do Lagedo.
Trata-se de um projecto que envolve um investimento da ordem dos 9.255.596 Euros e a criação de 27 postos de trabalho directos. Com a implementação do projecto, a empresa prevê alcançar um volume de vendas, para o mercado externo, da ordem dos 11.930.000 Euros em ano cruzeiro (2005).
Isto será Genérico? Provávelmente será...para mal da nossa região e do nosso País.

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