Nesta região das Beiras do Portugal interior, arcaico e profundo; nesta historica, progressiva e acolhedora cidade de Viseu, nimbada com a auréola de Viriato ("Viaraço"), mitico herói consagrador da ideia de "Lusitanidade" ("Libertador da antiga Lusitânia"; "o meu nome de ibero é Viriato"), senhor de um invulgar autodominio e frugalidade e de um desprendido despojamento dos bens terrenos, dotado de rara destreza, valentia e sagacidade ("muy ligeyro, muy valente e muy ardido") e de um apurado e quase sacral sentido demótico da escuta e da justiça e de um incarcerável impulso para a liberdade e a independência, de uma indomável capacidade de sofrer, resistir e lutar contra o poder imperial de Roma ("o Pastor (...), cuja fama ninguém virá que dome / Pois a grande Roma não se atreve"; "destro na lança mais que no cajado / (...) vencedor, invencibil, afamado"; "desperto nunca foi vencido"), em suma, incomparável protagonista da ousada assunção de uma identidade cultural e de um destino colectivo a cumprir ("Podemos vir a ser amigos de Roma; mas temos o direito de não querer ser romanos")...; nesta secular cidade-fortaleza, bem pode captar-se a fundura, telúrica, vital e antrópica, de um autonómico e universalista sentido épico, inspirador e arquitectador da história de cada um dos Povos que integram a nossa planetária Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: no sangue e na alma das nossas gentes, desde as suas raízes e abismos seminais, circula, incontornável, o "ADN arquetípico" de Viriato: no Ipiranga, em Luanda, no Maputo ou em Baucau... como nos Montes Hermínios...
Aqui, pois, nesta sua lendária cava, pode-se vir partilhar, na mesma "pátria da língua", a procura de um renovado e global alento, através da redescoberta dos fluxos míticos primigénios e das tonificantes energias, sinergias e afectos indispensáveis à realização dos sonhos e projectos, imprescindíveis à poética instauração de esperanças e utopias...
Fernando Paulo Baptista (27Out03)
A morte de Viriato