Em 1969, Alexandre Lucena e Vale pintava a caneta este belo quadro da nossa cidade, que transcrevo de seguida:
... Diferentemente da maioria das cidades provincianas, que no geral se modernizam com uma avenida que se abre ou um novo bairro que se cria, Viseu vem progredindo de há anos por todos os lados, em todas as direcções. Pelas principais estradas que saem da cidade, a de Abraveses que conduz ao Porto, a de Mangualde que segue para a Guarda, a da Meia Laranja que leva a Coimbra e a Lisboa - lindas e panorâmicas estradas de Viseu - erguem-se por entre retalhos de paisagem admirável e inesquecível, as novas construções, prédios modernos, alguns à antiga portuguesa, com balcões convidativos, janelas de cachorros com vasos de sardinheiras, jardins de relvados e arbustos. Simultâneamente, novos bairros, o de Massorim, de Fontelo, da Estação, de Marzovelos, vão povoando a periferia da cidade velha. Esta mesma vem mudando em muitos dos seus aspectos: reedifica aqui, alarga além, ajardina acolá - compõe, moderniza, enfim, as suas velhas praças e passeios públicos, o Rossio, Santa Cristina, a Cava, o Largo das Freiras... Mas com ser assim não perde, fiel ao seu passado e ao seu meio, a sua feição ruralista de sempre, bem afirmada no mercado semanal das terças feiras cuja tradição remonta muito além do século XVI. Nesses dias, a velha Praça do Concelho, hoje Praça de D. Duarte, é toda ela um colorido quadro, cheio de pitoresco e movimento. Em balcões improvisados, quatro tábuas armadas sobre tripés mal seguros, tendeiros, bufarinheiros, feirantes da região exibem mercadoria tentadora sob dosséis de pano cru, manchados de caruncho e remendados a esmo, como as velas de um barco delidas de muita rota e velhas de muitos anos... Aqui é o estendal da roupa feita, das botas brancas de bezerro, dos tamancos ferrados de tromba revirada que nem proa de moliceiro; além são os tabuleiros de miudezas, um mundo de tentações, com o sabonetinho minúsculo, as travessas e pentes de cabelo, maços de ganchos e carteiras de alfinetes, colares de ouro... de porcelana e espelhos de vidraça com moldura de latão; mais acolá os luxos da roupa branca de mulher, corpetinhos róseos com atacadores, camisas de riscado ou cetineta com rendas e entremeias, a par da roupa de homem, mais severa e mais prática, entre lotes de casacos e blusas de lã, garridas e grosseiras. E não faltam os utensílios de lavoura nem dos arranjos domésticos, o ferro da enxada, o pico de pedreiro, a dobradiça e fechadura toscas, a gamela, a masselra, o balde, a vassoura, o mocho de pinho branco, perfilados no chão, nos passeios, nos vãos das portas, por toda a Praça e ruas convergentes, transformadas assim em grande e pitoresco armazém. Nestes dias, Viseu regorgita de gente das aldeias, vinda à cidade fazer as suas mercas ou despachar sua vida pelas repartições, na Câmara, nas Finanças, nos Bancos, no Tribunal ou no Notário. Ainda então por vezes, a despeito da civilização que por toda a parte vem diluindo os costumes na massa homogénea e incaracterística do moderno, surgem aqui e além por entre o vulgar tipo encolarinhado e adamado de hoje, a serrana de larga saia rodada e chambrinho de cor viva, sobre que vai a matar a tradicional capucha, de burel escuro de pinhão, ou o velho patego de tamancos pré-históricos, na cabeça carapuça de malha ou cachiné de ramagens sob o chapéu de feltro preto, ás costas a coberta de grosseira lã de ovelha ou a ancestral capa de palha das intempéries beiroas. O Viseu das terças-feiras é, assim, o tipo perfeito da cidade rural provinciana, curioso quadro a inspirar artistas e interessar visitantes. Mas no resto da semana, escovada, lavada, urbanizada de novo, Viseu é a cidade moderna, de gente bem vestida e bem calçada, gente da terra, gente de fora, gente das vilas próximas, turistas de passagem, que nas ruas principais - a Rua Formosa, a Rua do Comércio, a Rua da Vitória, a Rua Direita, a Rua Alexandre Lobo - por entre o ruído e movimento de automóveis, passa, cruza, circula, enche os passeios, atravessa as ruas, entra nas lojas, conversa, mata o tempo... e à hora ociosa a que as aulas terminam e as repartições fecham, enche mundanamente os cafés a tomar chá ou vagueia burguêsmente pelos largos e jardins desta Cidade Jardim - a Cava de Viriato, o Largo Mouzinho de Albuquerque, o Largo Major Teles, o Largo Alves Martins, o Parque de Fontelo... - de floridos canteiros e mimosos relvados que enobrecem monumentos de artistas de renome como Teixeira Lopes e Mariano Benlliure.
Ontem era assim... Hoje, temos o Fórum!