(...) num momento como o actual, em que estratégicos sectores da vida pública e comunitária estão transversalmente dominados pela «barbárie da ignorância» (e não pela docta ignorantia ...) e por uma generalizada e insanável mediocridade (sempre atrevida e sofisticamente anti-socrática...) e mergulhados numa despudorada e pantanosa atmosfera de corrupção moral e degradação ética, promotoras do silenciamento, cancelamento ou narcotização (...) o Dr Fernando Paulo Baptista apresentou ontem no Auditório do Conservatório Azeredo Perdigão o seu recente livro "Polifonia, Poiese & Antropopoiese — Para uma Sinfónica do Humano —(Rapsódia dialógica com Sócrates, Octavio Paz, Michel Serres e José Saramago)". Foi um momento cultural na cidade que de relevante teve desde logo a circunstância louvável e absolutamente excepcional de ter reunido no painel de oradores os três centros do saber académico da urbe, UCP, Piaget e Politécnico... acreditem que tal aconteceu, por mais ficção que vos possa parecer! O outro aspecto que saliento mas pela negativa (embora não me espante tal facto) foi a circunstância já vulgar de nestes eventos de maior nivel cultural nenhum OCS local se fazer representar por forma a que, como seria sua natural função, serem porta voz da cultura na "cidade mediática" Acredito que se o tema fosse "Copofonia, Comedoria e Cacofonia" a aceitação mediática seria outra, mas enfim... Talvez, também por isso mesmo a certo passo do livro o autor coloque a seguinte questão:
(...) sempre que a cultura, a sensibilidade, a imaginação e a criação poéticas, estiveram adormecidas ou anestesiadas, andaram arredias ou foram escorraçadas da cidade, as superadoras saídas para os fundamentais problemas do homem e da humanidade ficaram irremediavelmente comprometidas… É pena chegar a tão triste e desiludente conclusão, mas não deixa de dar que pensar aquele desencantado desabafo de Saramago, em que nos diz que «no geral dos casos, a voz dos poetas é uma incompreendida voz»!… Por tudo isso, ouso questionar à face dos homens e à luz do sol: sem a «pasión crítica» que tenta interpretar e explicar a magia, «el poder eléctrico» incandescente e fulminante das palavras, «la repentina aparición de frases caídas del cielo», os «signos en rotación» na inestancável mobilidade da linguagem e das línguas, para assim melhor compreender os enigmas e os labirintos e os segredos e os mistérios do homem e do mundo, sem a «corriente alterna» que alimenta as «máquinas transparentes del delirio [que son] «los libros» e que faz mover «el arco y...» tanger «... la lira» na execução das humanas partituras, sem a sabedoria criadora e iluminante dos poetas, sem o inconformado grito de alerta dos profetas, sem as fulgurações que irrompem da arte e do sagrado, sem a freática uberdade das matrizes mais genuínas, mais fundas e mais fortes do pensamento e da cultura de todos os povos e de todas as gentes, pergunto: será possível governar orquestralmente a pólis ou dirigir sinagogicamente e com justa equidade e fraterna solidariedade este planeta outrora azul?...
(...) sempre que a cultura, a sensibilidade, a imaginação e a criação poéticas, estiveram adormecidas ou anestesiadas, andaram arredias ou foram escorraçadas da cidade, as superadoras saídas para os fundamentais problemas do homem e da humanidade ficaram irremediavelmente comprometidas… É pena chegar a tão triste e desiludente conclusão, mas não deixa de dar que pensar aquele desencantado desabafo de Saramago, em que nos diz que «no geral dos casos, a voz dos poetas é uma incompreendida voz»!… Por tudo isso, ouso questionar à face dos homens e à luz do sol: sem a «pasión crítica» que tenta interpretar e explicar a magia, «el poder eléctrico» incandescente e fulminante das palavras, «la repentina aparición de frases caídas del cielo», os «signos en rotación» na inestancável mobilidade da linguagem e das línguas, para assim melhor compreender os enigmas e os labirintos e os segredos e os mistérios do homem e do mundo, sem a «corriente alterna» que alimenta as «máquinas transparentes del delirio [que son] «los libros» e que faz mover «el arco y...» tanger «... la lira» na execução das humanas partituras, sem a sabedoria criadora e iluminante dos poetas, sem o inconformado grito de alerta dos profetas, sem as fulgurações que irrompem da arte e do sagrado, sem a freática uberdade das matrizes mais genuínas, mais fundas e mais fortes do pensamento e da cultura de todos os povos e de todas as gentes, pergunto: será possível governar orquestralmente a pólis ou dirigir sinagogicamente e com justa equidade e fraterna solidariedade este planeta outrora azul?...

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