Vejam lá se já conheciam esta:
Conta-se que há muitos anos um abastado comerciante viseense que dedicava os seus tempos livres à caça ter-se-á perdido na Serra da Gralheira quando ali caçava na companhia do seu cão. Apanhados por uma tempestade, o comerciante e o cão perderam o rumo para a viatura e a tiritar de frio foram encontrados por um pastor que os levou para a sua enegrecida choupana, onde o borralho da lareira os aqueceu e a malga de caldo os reconfortou. No dia seguinte, já restabelecidos e com a ajuda do pastor lá encontraram o caminho para o automóvel que os conduziu à capital da Beira Alta. Antes de partir o comerciante agradecido convidou o pastor a visitá-lo quando ele fosse a Viseu. O pastor a contra-gosto lá aceitou embora dizendo que raramente ia à cidade Quis no entanto o acaso que passados alguns meses o pastor fosse à terra de Viriato e lembrando-se do convite do comerciante lá se dirigiu a sua casa para o cumprimentar. Com as indicações que o comerciante lhe dera, o pastor, a custo lá encontrou a residência do homem que salvara na serra. Aí chegado tocou a campainha e esperou que lhe abrissem a porta. Segundos depois, a porta abriu-se e a empregada perguntou ao visitante ao que ia. O pastor explicou-lhe então a história passada na serra e pediu para falar com o comerciante. A empregada foi transmitir a mensagem e regressou com a informação de que o patrão não conhecia o pastor. Eis senão quando o cão do comerciante assume à porta e reconhecendo o pastor atirou-se a ele meigamente, lambendo-o, certamente lembrando-se de ter sido aquele o seu salvador naquele dia de tempestade. Perante este gesto o pastor virou-se para a empregada e disse-lhe:
"Muito obrigado, minha senhora. Estou satisfeito. Em Viseu, cão sim – homem não."
José de Castro 2001, pseudónimo de Júlio Cruz, director da Terra Lusitana, uma «Publicação Cultural de Índole Regionalista». No n.º 2, p. 61.

Sem comentários:
Enviar um comentário