Do alto da Sé, à luz dos valores do herói lusitano, um olhar critico, independente e exigente sobre as terras e gentes da região de Viriato. Com as referências do passado, as preocupações do presente e a esperança no futuro, olha-se para esta encruzilhada de gentes e vontades beirãs nesta linda Cidade Museu no coração de Portugal!...
27/10/2011
50 razões para amar Viseu
Texto de opinião publicado na edição 501 de 21Out do Jornal do Centro
Escrever algo positivo num momento em que no País a mudança esperada nos castiga, tanto ou mais, quanto a herança herdada requer um invulgar exercício de abstracção, sobretudo porque, na minha leiga opinião, já não está em causa apenas a economia e o défice, mas sim a soberania nacional e a sobrevivência das pessoas e famílias que, vivem já com o desespero de ter que enfrentar um dia pior após um dia para esquecer. Já ultrapassámos a fase do abismo e vivemos como Paul Krugman em 2007 metafóricamente referia, na sua coluna de opinião do New York Times, o momento Wile E. Coyote em que na cena clássica do desenho animado, o coiote chega à beira do precipício e continua a andar, ignorando o vazio e só quando olha para baixo e disso conscientemente se apercebe então cai abruptamente, ou se preferirem numa visão mais simplista mas, ainda assim igualmente assustadora embora porventura cómica, vivemos no País a anedota do fulano que depois de cair do 20º andar, ao passar pelo 10º ainda se sente capaz de dizer:
- Até agora tudo bem!
Por ora, vamos deixar a alegoria sobre a trágica realidade que somos obrigados a pagar com impostos, suor e sacrifício e, desejar que antes do final da queda os nossos políticos encontrem a almofada capaz de nos amparar o futuro e devolver a esperança e alegria de viver, até porque agora de pouco ou nada valerá chorar sobre leite derramado e, importa sim reinventar a politica e sobretudo os políticos. Importa mais fazer do passado lições aprendidas, fechar a sete chaves as sete portas do Inferno em que nos querem enclausurar e, abrir uma das sete portas da cerca afonsina da nossa “Viseu, Senhora da Beira, eternamente bonita, fidalga e sempre romeira” para ganharmos ânimo e motivação. E, convenhamos que a nossa cidade e as nossas gentes nos oferecem pelo menos cinquenta razões para a amarmos, para nela vivermos, para aqui trabalharmos com alma e, daqui ajudarmos a erguer este cantinho à beira mar depauperado.
Dado que gostos também se discutem pois, discutir os gostos do outro é abrir o debate que pode conduzir a muitas outras novas conclusões, permitam que plasme nestas linhas, guiado pelo desafio do editor da necessidade de reconstruirmos positivamente a nossa urbe, as razões porque entendo que todos devemos gostar de Viseu.
A primeira que me ocorre é, desde logo, a sua antiquíssima história que remonta à época castreja e, onde mais tarde surge associada a lendária e galvanazidora figura de Viriato para já não falar de D. Afonso Henriques não vão os de Guimarães exaltarem-se com tal possibilidade, mas não restam dúvidas que é notável o historial da cidade, assim como significativa é a quantidade e qualidade de personalidades que daqui se afirmaram e deram nome e prestigio à região. Quem nunca ouviu falar de Grão Vasco, Infante D. Henrique, D. Duarte, Alves Martins, Augusto Hilário, João de Barros, Aquilino Ribeiro, Emídio Navarro e de um sem número de notáveis vultos que nas artes, nas letras, nas ciências, na politica e nas mais variadas áreas se afirmaram e deixaram legado na cidade e no País. Mais recentemente poderíamos falar de Carlos Lopes, detentor de muitos recordes e da estátua do atleta sem cabeça na rotunda da Praça de seu nome, ou de muitos outros colunáveis que vão de acérrimos comentadores a favor do Glorioso a jornalistas famosos ou, até a um sem número de ministeriáveis nomes que, tanta pouca obra aqui deixaram mas tanta promessa edificaram, sendo a última delas a que foi deixada pelo nosso ilustre conterrâneo e Ministro, Álvaro Santos Pereira, de que antes de acabar o mandato, seja lá isso em que ano for, será construída a Auto-Estrada portajada Viseu - Coimbra e posta a funcionar a linha de comboio, abrindo assim novos caminhos a esta encruzilhada de vontades e gentes beirãs. E, à parte a ironia o certo é que a localização geográfica de Viseu é uma das fundamentadas razões porque vale a pena acreditar na cidade. Com efeito, a lamuria da interioridade de que Viseu está esquecida no coração de Portugal é uma visão fatalista só possível neste descuidado País que vive obcecado com Lisboa pois, a cidade transporta consigo a deliciosa particularidade de estar a duas horas (e pouco mais) de quase tudo, do mar à Europa, centralidade abençoada que poderia servir de argumento para tanto investimento e desenvolvimento sustentado mas que, os invejosos e cruéis habitantes de S. Bento não suportam e que agora nos procuram fazer pagar em portagens e pórticos.
A gastronomia, amigos leitores, lembrei-me agora, digam lá não é de excelência? E juntem-lhe o néctar de Baco das Terras do Dão, o pão e o queijo beirão... pois, já nos fazíamos ao caminho! Mas há mais, a lareira e o frio beirão, quem tem disso à porta de casa, digam lá? E a monumentalidade da Sé vista de onde quer que seja e de onde se esconda o mamarracho da Segurança Social, é de pasmar e de contemplar assim como a riqueza do património do Centro Histórico com o Museu de Grão Vasco como local de visita obrigatória. E por falar em património porque não o cultural com o Teatro Viriato à cabeça e mais ainda do património da memória que são os nossos idosos, outra razão fulcral para amar Viseu ainda que argumentem que pessoas experientes em idade os há em todas outras cidades do País, e que os nossos não são especialmente diferentes dos outros mas, acontece que estes são nossos, o que os torna por isso mais belos e únicos pois ainda conservam o saber acumulado de experiência feita, a ternura da idade do mimo, o carinhos dos avós que cuidam dos netos e os levam à escola, o encanto da poética das conversas de jardim e oxalá, em conjunto saibamos construir outras razões para os nossos velhos continuarem a amar a vida e a nossa cidade...
E, por cá ainda há vizinhos, não apenas pessoas que moram na casa ao lado! Aqui ainda sabemos o nome das pessoas que habitam na nossa rua, ainda damos de borla os bons dias, trocamos palavras gentis no vão de escada, contamos com a sua ajuda ainda que um ou outro fuja à regra e seja até capaz de inventar o nosso futuro.. e de futuro é feita também a outra razão, ainda que nem sempre compreendida, mas que são e serão capitais no desenvolvimento da nossa média cidade, os estudantes do primário ao secundário terminando no ensino superior da cidade, sejam cá nascidos ou cá colocados contra a sua vontade mas, que por cá vão vivendo e, por a cidade tão bem saber receber e acolher, no dia em que o destino os de cá afasta, levam consigo as lágrimas das saudades e as recordações dos momentos que aqui viveram, memórias que se entranham neles e os acompanham para a vida... Viseu é nosso até morrer, dizem eles!
Mas Viseu é também uma cidade segura, mesmo assim, é uma cidade bem organizada, com o verde do Fontelo a servir de pulmão e a limpeza visível em toda a largura e extensão das suas francas avenidas, é uma cidade arrumada que foi crescendo harmoniosamente à volta das floridas e encantadoras rotundas que são uma das nossas invejadas e tanto copiadas imagens de marca onde só o conhecido bigode de Fernando Ruas, sem um único pelo branco ao fim de tanto ano de governação consegue superar pois, quer se queira quer não, o nosso Presidente não passa incólume, é figura de destaque no panorama nacional que não só politico e, também ele próprio deixa marca incontornável na gestão e concepção da nossa cidade.
Viseu é também feira semanal, é Feira de São Mateus, é festas a perder sem conta no Verão das serenas aldeias do concelho a que se junta o colorido dos nossos imigrantes, é Cavalhadas, é o murmúrio critico das conversas das quatro esquinas, é a simpatia dos teimosos comerciantes da Rua Direita que lutam diariamente contra o ar condicionado dos megalómanos centros comerciais citadinos, locais de passeio domingueiro das gentes da redondeza, é a descoberta da ecopista no seu encanto rural e no beneficio físico que gratuitamente oferece, é a excelência da variada oferta hoteleira de qualidade, da restauração a par com aquela na simpatia da boa hospitalidade beirã aos turistas, é a qualidade das termas de Alcafache vizinhas das águas limpas do Dão e da companhia na paisagem da Estrela e do Caramulo.
Já são tantas e tão boas mas há mais uma outra razão, sendo que, já consigo imaginar o sorriso que isso irá provocar, mas apesar de tudo é a comunicação social local que, lá se vai aguentando na luta contra o fenómeno do clique online das redes sociais e, nos vai aproximando nesta discussão de ideias que a letargia da sociedade civil e o comodismo egoísta do sofá da sala a consumir lixo televisivo nos torna desinteressados com tudo o que não nos diz directamente respeito e apenas capazes do culto da inércia, do gosto pela mediocridade e de lançarmos olhares de inveja a quem ousa ser activo e empreendedor. Se não concordam, recordem-me lá quando foi a última vez que a cidade se soube unir como um todo na luta por um objectivo comum, pela Universidade Pública, por exemplo? Qual a última vez que a cidade saiu para a rua e em conjunto lutámos por algo nosso na defesa dos interesses desta cidade e da região? Mas as suas gentes forjadas na dureza do granito e transportando nos genes o ADN de Viriato são capazes de o fazer se, quem de direito assumir o primeiro lugar nessa comum necessidade, e por isso, essa característica dos Viseenses - dos que cá nasceram, dos que cá escolheram viver ou dos que estão lá fora - é outra mui importante razão porque se deve gostar de Viseu. Aqui chegados, se esteve atento à contabilidade e eu não me enganei na aritmética faltam apenas duas razões para o número apontado. A penúltima e tão importante ou mais que as restantes são os leitores deste plural jornal, que pacientemente até aqui me conseguiram ler e que, sendo viseenses sabem que todas as razões anotadas são verdadeiras ficando ainda outras tantas por apontar e, para os que nos demais quatro cantos do mundo ao lerem nelas não acreditam, terão aqui a última e derradeira razão para visitar Viseu... pois quem nunca viu Viseu, não sabe o que perdeu!
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