20/10/2011

A Feira de São Mateus

A Feira já acabou mas na sequência do pedido de alguns leitores para postar no VSB dos artigos de opinião publicados no Jornal do Centro aqui fica o texto de 12Ago11, sobre a Feira de São Mateus:

Daqui a 2 dias abrem-se as portas no Campo de Viriato para mais uma edição da secular Feira de São Mateus, agora com nova programação e renovadas expectativas. A definhar durante um quarto de século, mergulhada numa cíclica e esgotada programação pimba, num espaço que cada vez mais apinhado de bugiganga mais pindérico se foi tornando, colada a um provincianismo no mau sentido da palavra, deixou de se oferecer aos visitantes como um espaço de encontro e, passou a ser para os viseenses “a mesma coisa de todos os anos”. A Expovis acabou assim até a ser tema de discussão na campanha de alguns políticos candidatos à Câmara Municipal em períodos eleitorais e, um pouco por todo o lado, este ex-libris da região de Viseu passou a ser alvo de frequente e negativa critica, reclamando-se da sua capacidade de se reinventar e adaptar à mudança dos tempos mas, num modelo que sem perder a ruralidade fosse capaz de conquistar a modernidade.
A Feira passou a ser vista como um certame obsoleto, sem grande relevância económica e cultural, com reduzido poder de atracção de pessoas, embora a isto a Expovis fosse contrapondo os números irreais da ordem de um milhão de visitantes facilmente desmontáveis, como no caso presente do ano transacto em que a organização admitia na Comunicação Social ter contabilizado cerca de 240 mil entradas pagas em 16 dias de feira, o que a ser verdade significaria uma média de 15 mil pessoas por dia de entradas e assim sendo, nos restantes 24 dias a feira teria que ter uma afluência diária média de 31 mil pessoas para que se atingisse o milhão de visitantes que, todos os anos servia de bandeira justificativa do miserabilismo cultural e da descaracterização social a que foi vetada.  E se em 2010 a feira contabilizou mais 6 mil entradas que em 2009 como se teria então atingido esse mesmo milhão na anterior edição? Como dizia Lincoln e quem disso fez slogan de campanha, “podem-se enganar a todos por algum tempo, podem-se enganar alguns por todo o tempo mas não se pode enganar a todos todo o tempo..."
Ano após ano, iam-se somando o número de viseenses que deixaram de se rever no modelo da Feira, adquiria-se a certeza que a Feira de São Mateus deixava de projectar a Cidade ao nível nacional e passou apenas a depender de um segmento populacional demasiado específico para quem a esgotada e retrógrada programação cultural se fotocopiava sem critério nem novidade. O exemplo mais caricato além da sagaz ideia da Mascote é talvez, se bem se recordam o facto de anos seguidos no dia dedicado à Criança o artista convidado ser nem mais nem menos que o consagrado Quim Barreiros!
E é assim, caricaturada, alvo de repetidas criticas e sujeita a um escusado desgaste da sua imagem e prestigio angariado ao longo dos seus 619 anos de história que, acaba por ser quase inevitável a mudança na Expovis. Escandalosamente empurrado pelas escadas do edificio central do Rossio e num processo ainda menos elegante de substituição na Expovis, José Moreira acaba por aceitar ficar com esta triste herança e lhe acrescenta a sua vontade de a levar de novo aos viseenses, dando-a conhecer por todo o Portugal e levando-a além fronteiras com as memórias dos emigrantes espalhados pelos 4 cantos do Mundo.
Sem que de Fernando Ruas se conheça publicamente uma nova orientação para a Feira, uma outra visão cultural e dimensional do certame, o que não seria nada de extraordinário para um medalha de ouro da Société Académique des Arts, Sciences et Lettres, o facto é que José Moreira abraçou de forma graciosa e exemplar nos tempos que correm esta causa e, subindo para o “arame sem rede por baixo”, recolheu opiniões de diversas personalidades, organizações e associações indo ao encontro da cidade e das pessoas, para encontrar o caminho de fazer da Feira de São Mateus um grande certame multidimensional, que albergue um conjunto diversificado de eventos e manifestações culturais de projecção nacional e até se possível internacional, que de novo tornem Viseu a ser procurada pelo maior número de visitantes possível.
Ao elaborar uma programação cultural mais vasta, associada a uma imagem de modernidade e abertura da cidade capaz de atrair novos públicos, recriando o espaço físico para que seja de novo um local de passeio, encontro e socialização, amplo e aprazível, apostando na promoção de clusters regionais (o vinho do Dão, a gastronomia, o artesanato, etc) e em paralelo seja capaz de manter uma vertente de promoção da iniciativa e inovação económicas, em resumo, ao procurar que a Feira de São Mateus passe a ser uma “marca” com um potencial económico, turístico e cultural único, José Moreira merece não ficar sozinho neste desiderato. Merece que a cidade com ele se envolva para que o espaço abrangente e intergeracional da Feira volte a ser uma realidade, para que ela volte a ser Franca!
Certamente que, no tempo disponível e com os parcos recursos que dispõe, não terá José Moreira conseguido ir tão longe quanto esperava e que, outro tanto haverá ainda a fazer em próximas edições mas é aí que, caro leitor e estimado concidadão, todos devemos contribuir, com a nossa opinião, a nossa critica e sobretudo com a nossa presença numa Feira que é de também nossa porque “Viseu é de todos nós”, não é?
Agora venha de lá e depressa essa nova Feira de São Mateus!
Vemo-nos na Feira! Até já!