A Feira já acabou mas na sequência do pedido de alguns leitores para postar no VSB dos artigos de opinião publicados no Jornal do Centro aqui fica o texto de 12Ago11, sobre a Feira de São Mateus:
Daqui a 2 dias abrem-se as portas no Campo de Viriato para mais uma
edição da secular Feira de São Mateus, agora com nova programação e
renovadas expectativas. A definhar durante um quarto de século,
mergulhada numa cíclica e esgotada programação pimba, num espaço que
cada vez mais apinhado de bugiganga mais pindérico se foi tornando,
colada a um provincianismo no mau sentido da palavra, deixou de se
oferecer aos visitantes como um espaço de encontro e, passou a ser para
os viseenses “a mesma coisa de todos os anos”. A Expovis acabou assim
até a ser tema de discussão na campanha de alguns políticos candidatos à
Câmara Municipal em períodos eleitorais e, um pouco por todo o lado,
este ex-libris da região de Viseu passou a ser alvo de frequente e
negativa critica, reclamando-se da sua capacidade de se reinventar e
adaptar à mudança dos tempos mas, num modelo que sem perder a ruralidade
fosse capaz de conquistar a modernidade.
A Feira passou a ser
vista como um certame obsoleto, sem grande relevância económica e
cultural, com reduzido poder de atracção de pessoas, embora a isto a
Expovis fosse contrapondo os números irreais da ordem de um milhão de
visitantes facilmente desmontáveis, como no caso presente do ano
transacto em que a organização admitia na Comunicação Social ter
contabilizado cerca de 240 mil entradas pagas em 16 dias de feira, o que
a ser verdade significaria uma média de 15 mil pessoas por dia de
entradas e assim sendo, nos restantes 24 dias a feira teria que ter uma
afluência diária média de 31 mil pessoas para que se atingisse o milhão
de visitantes que, todos os anos servia de bandeira justificativa do
miserabilismo cultural e da descaracterização social a que foi vetada.
E se em 2010 a feira contabilizou mais 6 mil entradas que em 2009 como
se teria então atingido esse mesmo milhão na anterior edição? Como dizia
Lincoln e quem disso fez slogan de campanha, “podem-se enganar a todos
por algum tempo, podem-se enganar alguns por todo o tempo mas não se
pode enganar a todos todo o tempo..."
Ano após ano, iam-se somando
o número de viseenses que deixaram de se rever no modelo da Feira,
adquiria-se a certeza que a Feira de São Mateus deixava de projectar a
Cidade ao nível nacional e passou apenas a depender de um segmento
populacional demasiado específico para quem a esgotada e retrógrada
programação cultural se fotocopiava sem critério nem novidade. O exemplo
mais caricato além da sagaz ideia da Mascote é talvez, se bem se
recordam o facto de anos seguidos no dia dedicado à Criança o artista
convidado ser nem mais nem menos que o consagrado Quim Barreiros!
E
é assim, caricaturada, alvo de repetidas criticas e sujeita a um
escusado desgaste da sua imagem e prestigio angariado ao longo dos seus
619 anos de história que, acaba por ser quase inevitável a mudança na
Expovis. Escandalosamente empurrado pelas escadas do edificio central do
Rossio e num processo ainda menos elegante de substituição na Expovis,
José Moreira acaba por aceitar ficar com esta triste herança e lhe
acrescenta a sua vontade de a levar de novo aos viseenses, dando-a
conhecer por todo o Portugal e levando-a além fronteiras com as memórias
dos emigrantes espalhados pelos 4 cantos do Mundo.
Sem que de
Fernando Ruas se conheça publicamente uma nova orientação para a Feira,
uma outra visão cultural e dimensional do certame, o que não seria nada
de extraordinário para um medalha de ouro da Société Académique des
Arts, Sciences et Lettres, o facto é que José Moreira abraçou de forma
graciosa e exemplar nos tempos que correm esta causa e, subindo para o
“arame sem rede por baixo”, recolheu opiniões de diversas
personalidades, organizações e associações indo ao encontro da cidade e
das pessoas, para encontrar o caminho de fazer da Feira de São Mateus um
grande certame multidimensional, que albergue um conjunto diversificado
de eventos e manifestações culturais de projecção nacional e até se
possível internacional, que de novo tornem Viseu a ser procurada pelo
maior número de visitantes possível.
Ao elaborar uma programação
cultural mais vasta, associada a uma imagem de modernidade e abertura da
cidade capaz de atrair novos públicos, recriando o espaço físico para
que seja de novo um local de passeio, encontro e socialização, amplo e
aprazível, apostando na promoção de clusters regionais (o vinho do Dão, a
gastronomia, o artesanato, etc) e em paralelo seja capaz de manter uma
vertente de promoção da iniciativa e inovação económicas, em resumo, ao
procurar que a Feira de São Mateus passe a ser uma “marca” com um
potencial económico, turístico e cultural único, José Moreira merece não
ficar sozinho neste desiderato. Merece que a cidade com ele se envolva
para que o espaço abrangente e intergeracional da Feira volte a ser uma
realidade, para que ela volte a ser Franca!
Certamente que, no
tempo disponível e com os parcos recursos que dispõe, não terá José
Moreira conseguido ir tão longe quanto esperava e que, outro tanto
haverá ainda a fazer em próximas edições mas é aí que, caro leitor e
estimado concidadão, todos devemos contribuir, com a nossa opinião, a
nossa critica e sobretudo com a nossa presença numa Feira que é de
também nossa porque “Viseu é de todos nós”, não é?
Agora venha de lá e depressa essa nova Feira de São Mateus!
Vemo-nos na Feira! Até já!
