Texto de opinião publicado na edição 497 do Jornal do Centro:
O Presidente da Câmara Municipal de Viseu, numa intervenção de fundo
na última Assembleia Municipal que se vai descrever aqui neste texto,
salientou “a necessidade da afirmação de Viseu no contexto regional,
nacional e internacional”, e reafirmou a promoção da “marca Viseu”,
apostando na criação de infra-estruturas e equipamentos e na realização
de acções potenciadoras da imagem de Viseu.
Na ocasião deixou como
exemplos “a reabilitação da Quinta da Cruz, a “Ecopista do Dão”, a
requalificação da zona envolvente às Termas de Alcafache, a sinalética e
informação turística e o “Viseu Welcome Center” deixando para segundas
núpcias, se as houver, as promessas da campanha eleitoral de 2009, da
praia fluvial de Viseu ou do Centro de Artes e Espectáculos, sem que
antes não deixasse a Edilidade de gastar num vistoso projecto de
arquitectura quase tantos euros quantos os agora ainda empatados no BPP.
Ora,
na criação de uma marca é necessário assegurar aspectos como o
conceito, diferenciação positiva de qualidade e excelência, transmitindo
ao público a ideia explícita ou implícita sobre a marca e o seu valor; a
sua contemporaneidade, não alinhando facilmente nas modas do momento
até porque “as boas ideias resistem, as tendências desaparecem”; a
personalidade da marca pois a originalidade sem perca de significado é
que fará a diferença frente à concorrência; a sua pregnância fazendo com
que ela fique o maior tempo possível em evidência na cabeça do
consumidor e da concorrência e naturalmente o seu uso flexível na
aplicação em diversos meios de comunicação que faça com que a marca se
mantenha actual por muito tempo.
Vejamos então o que de
diferenciador, de pregnância e modus operandi nos traz esta marca Viseu
de Fernando Ruas. Comecemos pela Quinta da Cruz que já atravessou vários
mandatos, já viu as obras paradas por falta de vistos do Tribunal de
Contas, já conheceu atrasos por falência da empresa construtora e
provavelmente agora que as vontades se alinharão ali para os lados do
Ministério do conterrâneo e Secretário de Estado Almeida Henriques virá a
conhecer nova esperança de ver ali construído o permanentemente adiado
Arquivo Distrital. É uma “marca” que tarda e que, se bem me recordo já
teve há sete anos atrás até um conceito bem mais ambicioso, sem contudo
ser inovador, da criação de um museu de arte moderna transformando
aquele espaço numa espécie de Fundação de Serralves, como o Edil o
visualizou no programa Terra a Terra, em Dezembro de 2004. Outros
tempos, outros períodos eleitorais...
Continuando o rosário
chegamos à Ecopista do Dão, sem dúvida e de facto uma mais valia para a
promoção turística da região e valorização física dos seus utilizadores
mas que deixa também a certeza de que não serão aquelas infraestruturas
necessárias para a ferrovia assim como dificilmente o serão os terrenos
supostamente reservados para a ligação ferroviária à linha da Beira
Alta, o que por certo irá permitir a finalização anunciada há mais de
uma década, do processo de revisão do PDM, antes até de Fernando Ruas
terminar o seu derradeiro mandato à frente da única cidade europeia de
média dimensão sem comboio.
Deixando o Pavia e a sua inacabada
requalificação aproximemo-nos então do Dão e das Termas de Alcafache,
minha vizinha de eleição, e que merecem esse novo olhar que refere o
Autarca além de que certamente a aposta através do PROVERE na
requalificação ambiental deste rio será factor acrescido de riqueza e
saúde para a população e para os utilizadores daquele turismo termal mas
sem aposta em paralelo na melhoria da oferta hoteleira naquela zona,
temo que tudo não passe de uma forma de construir subrepticiamente uma
praia concorrente às águas salgadas que se fazem sentir na encosta da
Senhora do Castelo, fazendo assim esquecer a inenarrável ideia da praia
do Pavia no sopé da Sé e apagando com as águas termais o fogo da azia a
doces regionais como a bola de berlim e o pastel de feijão que os aviões
publicitários procuram espalhar sobrevoando a cidade sem autorização
pelo que, só depois de melhor conhecido o projecto serei capaz de
desviar tais ideias e deixar de lado a ironia que a ignorância sobre o
mesmo me conduz a ter.
Quanto ao Viseu Welcome Center a ideia
parece interessante e nada como esperar com natural atenção o seu
percurso de execução. De seguida, o Sr Presidente num interessante
exercício histórico transporta-nos até ao Mundial de Andebol de 2003 e
ao Euro 2004 como se uma década depois Viseu ainda sentisse os efeitos
positivos de tal realização ou sinal de que daí para cá pouco mais de
realce haverá a considerar e aproveita-se para recordar que foi também
nessa altura que aconteceu o IberRock que numa fase subsequente
aconteceria em Salamanca. Coisas da história que uma boa memória não
esquece... e que a cidade mesmo assim não desmerece!
Esquecendo-se
do apreciável êxito e positivo efeito do comboio turístico e das voltas
às rotundas da Volta vem depois apontar-nos a charrete para o passeio
na cidade e juntar-lhe o funicular como emblema de marca, a obra do
regime. A charrete se a memória não me falha é uma aposta privada com o
consentimento da Câmara que é sem dúvida um cartão de visita
interessante e que se vê com bons olhos mas não se compreende a forma de
realce que o mesmo assume como se de coisa própria se tratasse.
Já
o funicular continua a ser alvo de permanente e constante manutenção
com despesas acrescidas ao seu regular funcionamento sem que disso sejam
apontadas as despesas custo x eficácia e a não ser o utilizador a pagar
essa factura os custos no futuro serão uma “marca” pouco recomendável
que nos irá deixar, por certo!
De seguida, na afirmação ainda da
marca Viseu não posso deixar de aplaudir o facto de Viseu ter recebido
vários prémios a par do facto de o concelho e a cidade serem apontados
como o melhor local para se viver ou do galvanizador efeito estatístico
dos últimos censos e é exactamente por esse reconhecimento que as
exigências e as preocupações da marca Viseu serão ainda maiores.
A
“novela da TVI” é interessante para os viseenses aqui e pelo mundo fora
no final do dia se reverem na sua cidade e dela se orgulharem mas na
manhã seguinte o que contam são os problemas do dia a dia. E neste seu
balanço e visão da marca Viseu de Fernando Ruas não há uma palavra sobre
criação de emprego, sobre empreendedorismo, inovação... e isso deve
preocupar-nos!
A cidade tem recebido mercê de todos os aspectos
positivos e dinamizadores que aponta mais gente ou pelo menos tem
servido de esponja na região fixando as pessoas mas é preciso também por
isso que a politica vá ao encontro dessas pessoas e as fidelize nessa
marca. Sei que se poderá referir ainda outros aspectos como as obras
inacabadas do Parque da Cidade, da inadiada inauguração do Museu do
Quartzo, etc... mas nem uma palavra sobre o famoso Tecnopolis anunciado
em Junho de 2007 do Parque Industrial de Lordosa, ou sobre a Central de
Biomassa do Parque de Coimbrões, ou sobre os resultados dos 29% de
participação na GestinViseu, nem um sinal sobre como combater o flagelo
do desemprego na região que à semelhança do panorama nacional cresce dia
a dia ao contrário do que os arautos rosas nos quiseram vender na
última campanha e do pouco que os responsáveis laranjas do momento fazem
por inverter!
Nem um sinal de esperança para aposta no
empreendedorismo jovem, para a fixação dos casais e famílias, nada...
será que de tantas cidades geminadas com Viseu, desde Ciudad Rodrigo e
Oviedo na vizinha Espanha, Arezzo em Itália, Marly-le-Roi em França,
Lublin na Polónia, Anápolis e Rio de Janeiro no Brasil, Khaskovo na
Bulgária, São Filipe em Cabo Verde, Santa Maria da Feira, Aveiro e
recentemente da Costa de Marfim não há empresas disponiveis para
investirem em Viseu criando emprego e aumentando as exportações do nosso
País para esses territórios? E o que dizer da aposta na cultura, na
valorização do património da cidade ou até na promoção do “cluster
regional do vinho do Dão” e demais produtos regionais? O que é feito da
alma beirã do “envergonhado e escondido” Viriato, “vencedor invencibil,
afamado” (Os Lusíadas, VIII, 6) herói exemplar e sinónimo de coragem e
luta das gentes das nossas terras, perdida que está a bandeira
eleitoralista de D. Afonso Henriques? Experimentem ir a Zamora na nossa
vizinha Espanha e vejam o que a marca de Viriato pode por si só fazer
por uma cidade... e Viseu não pode ter todas essas marcas e muito mais?
Genericamente,
a imagem de “marca Viseu” já é considerada muito positiva, perceptível
através dos vários comentários elogiosos de muitas pessoas de relevância
nacional e que não são naturais desta região e mais ainda visível por
todos aqueles que nos visitam porém, para os que cá estão e gostam de
estar, Viseu pode ser mais que um logótipo conhecido e a ser uma marca,
pois que seja então, a marca permanente no tempo de futuro sustentável e
sustentado e, essa sim, creio não me enganar, é a marca Viseu que os
viseenses querem para si, para os seus filhos e netos!

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