23/10/2011

A marca Viseu

Texto de opinião publicado na edição 497 do Jornal do Centro:
O Presidente da Câmara Municipal de Viseu, numa intervenção de fundo na última Assembleia Municipal que se vai descrever aqui neste texto, salientou “a necessidade da afirmação de Viseu no contexto regional, nacional e internacional”, e reafirmou a promoção da “marca Viseu”, apostando na criação de infra-estruturas e equipamentos e na realização de acções potenciadoras da imagem de Viseu.
Na ocasião deixou como exemplos “a reabilitação da Quinta da Cruz, a “Ecopista do Dão”, a requalificação da zona envolvente às Termas de Alcafache, a sinalética e informação turística e o “Viseu Welcome Center” deixando para segundas núpcias, se as houver, as promessas da campanha eleitoral de 2009, da praia fluvial de Viseu ou do Centro de Artes e Espectáculos, sem que antes não deixasse a Edilidade de gastar num vistoso projecto de arquitectura quase tantos euros quantos os agora ainda empatados no BPP.

 
Ora, na criação de uma marca é necessário assegurar aspectos como o conceito, diferenciação positiva de qualidade e excelência, transmitindo ao público a ideia explícita ou implícita sobre a marca e o seu valor; a sua contemporaneidade, não alinhando facilmente nas modas do momento até porque “as boas ideias resistem, as tendências desaparecem”; a personalidade da marca pois a originalidade sem perca de significado é que fará a diferença frente à concorrência; a sua pregnância fazendo com que ela fique o maior tempo possível em evidência na cabeça do consumidor e da concorrência e naturalmente o seu uso flexível na aplicação em diversos meios de comunicação que faça com que a marca se mantenha actual por muito tempo.
Vejamos então o que de diferenciador, de pregnância e modus operandi nos traz esta marca Viseu de Fernando Ruas. Comecemos pela Quinta da Cruz que já atravessou vários mandatos, já viu as obras paradas por falta de vistos do Tribunal de Contas, já conheceu atrasos por falência da empresa construtora e provavelmente agora que as vontades se alinharão ali para os lados do Ministério do conterrâneo e Secretário de Estado Almeida Henriques virá a conhecer nova esperança de ver ali construído o permanentemente adiado Arquivo Distrital. É uma “marca” que tarda e que, se bem me recordo já teve há sete anos atrás até um conceito bem mais ambicioso, sem contudo ser inovador, da criação de um museu de arte moderna transformando aquele espaço numa espécie de Fundação de Serralves, como o Edil o visualizou no programa Terra a Terra, em Dezembro de 2004. Outros tempos, outros períodos eleitorais...
Continuando o rosário chegamos à Ecopista do Dão, sem dúvida e de facto uma mais valia para a promoção turística da região e valorização física dos seus utilizadores mas que deixa também a certeza de que não serão aquelas infraestruturas necessárias para a ferrovia assim como dificilmente o serão os terrenos supostamente reservados para a ligação ferroviária à linha da Beira Alta, o que por certo irá permitir a finalização anunciada há mais de uma década, do processo de revisão do PDM, antes até de Fernando Ruas terminar o seu derradeiro mandato à frente da única cidade europeia de média dimensão sem comboio.
Deixando o Pavia e a sua inacabada requalificação aproximemo-nos então do Dão e das Termas de Alcafache, minha vizinha de eleição, e que merecem esse novo olhar que refere o Autarca além de que certamente a aposta através do PROVERE na requalificação ambiental deste rio será factor acrescido de riqueza e saúde para a população e para os utilizadores daquele turismo termal mas sem aposta em paralelo na melhoria da oferta hoteleira naquela zona, temo que tudo não passe de uma forma de construir subrepticiamente uma praia concorrente às águas salgadas que se fazem sentir na encosta da Senhora do Castelo, fazendo assim esquecer a inenarrável ideia da praia do Pavia no sopé da Sé e apagando com as águas termais o fogo da azia a doces regionais como a bola de berlim e o pastel de feijão que os aviões publicitários procuram espalhar sobrevoando a cidade sem autorização pelo que, só depois de melhor conhecido o projecto serei capaz de desviar tais ideias e deixar de lado a ironia que a ignorância sobre o mesmo me conduz a ter.
Quanto ao Viseu Welcome Center a ideia parece interessante e nada como esperar com natural atenção o seu percurso de execução. De seguida, o Sr Presidente num interessante exercício histórico transporta-nos até ao Mundial de Andebol de 2003 e ao Euro 2004 como se uma década depois Viseu ainda sentisse os efeitos positivos de tal realização ou sinal de que daí para cá pouco mais de realce haverá a considerar e aproveita-se para recordar que foi também nessa altura que aconteceu o IberRock que numa fase subsequente aconteceria em Salamanca. Coisas da história que uma boa memória não esquece... e que a cidade mesmo assim não desmerece!
Esquecendo-se do apreciável êxito e positivo efeito do comboio turístico e das voltas às rotundas da Volta vem depois apontar-nos a charrete para o passeio na cidade e juntar-lhe o funicular como emblema de marca, a obra do regime. A charrete se a memória não me falha é uma aposta privada com o consentimento da Câmara que é sem dúvida um cartão de visita interessante e que se vê com bons olhos mas não se compreende a forma de realce que o mesmo assume como se de coisa própria se tratasse.
Já o funicular continua a ser alvo de permanente e constante manutenção com despesas acrescidas ao seu regular funcionamento sem que disso sejam apontadas as despesas custo x eficácia e a não ser o utilizador a pagar essa factura os custos no futuro serão uma “marca” pouco recomendável que nos irá deixar, por certo!
De seguida, na afirmação ainda da marca Viseu não posso deixar de aplaudir o facto de Viseu ter recebido vários prémios a par do facto de o concelho e a cidade serem apontados como o melhor local para se viver ou do galvanizador efeito estatístico dos últimos censos e é exactamente por esse reconhecimento que as exigências e as preocupações da marca Viseu serão ainda maiores.
A “novela da TVI” é interessante para os viseenses aqui e pelo mundo fora no final do dia se reverem na sua cidade e dela se orgulharem mas na manhã seguinte o que contam são os problemas do dia a dia. E neste seu balanço e visão da marca Viseu de Fernando Ruas não há uma palavra sobre criação de emprego, sobre empreendedorismo, inovação... e isso deve preocupar-nos!
A cidade tem recebido mercê de todos os aspectos positivos e dinamizadores que aponta mais gente ou pelo menos tem servido de esponja na região fixando as pessoas mas é preciso também por isso que a politica vá ao encontro dessas pessoas e as fidelize nessa marca. Sei que se poderá referir ainda outros aspectos como as obras inacabadas do Parque da Cidade, da inadiada inauguração do Museu do Quartzo, etc... mas nem uma palavra sobre o famoso Tecnopolis anunciado em Junho de 2007 do Parque Industrial de Lordosa, ou sobre a Central de Biomassa do Parque de Coimbrões, ou sobre os resultados dos 29% de participação na GestinViseu, nem um sinal sobre como combater o flagelo do desemprego na região que à semelhança do panorama nacional cresce dia a dia ao contrário do que os arautos rosas nos quiseram vender na última campanha e do pouco que os responsáveis laranjas do momento fazem por inverter!
Nem um sinal de esperança para aposta no empreendedorismo jovem, para a fixação dos casais e famílias, nada... será que de tantas cidades geminadas com Viseu, desde Ciudad Rodrigo e Oviedo na vizinha Espanha, Arezzo em Itália, Marly-le-Roi em França, Lublin na Polónia, Anápolis e Rio de Janeiro no Brasil, Khaskovo na Bulgária, São Filipe em Cabo Verde, Santa Maria da Feira, Aveiro e recentemente da Costa de Marfim não há empresas disponiveis para investirem em Viseu criando emprego e aumentando as exportações do nosso País para esses territórios? E o que dizer da aposta na cultura, na valorização do património da cidade ou até na promoção do “cluster regional do vinho do Dão” e demais produtos regionais? O que é feito da alma beirã do “envergonhado e escondido” Viriato, “vencedor invencibil, afamado” (Os Lusíadas, VIII, 6) herói exemplar e sinónimo de coragem e luta das gentes das nossas terras, perdida que está a bandeira eleitoralista de D. Afonso Henriques? Experimentem ir a Zamora na nossa vizinha Espanha e vejam o que a marca de Viriato pode por si só fazer por uma cidade... e Viseu não pode ter todas essas marcas e muito mais?
Genericamente, a imagem de “marca Viseu” já é considerada muito positiva, perceptível através dos vários comentários elogiosos de muitas pessoas de relevância nacional e que não são naturais desta região e mais ainda visível por todos aqueles que nos visitam porém, para os que cá estão e gostam de estar, Viseu pode ser mais que um logótipo conhecido e a ser uma marca, pois que seja então, a marca permanente no tempo de futuro sustentável e sustentado e, essa sim, creio não me enganar, é a marca Viseu que os viseenses querem para si, para os seus filhos e netos!