Artigo publicado no Jornal do Centro de 26 de Agosto:
A Lusitânia, na História Antiga, era o território oeste da Península
Ibérica onde viviam os povos lusitanos desde o Neolítico e que, a partir
de 29 a.C. com a conquista romana passou a designar a província cuja
capital era Emerita Augusta (actual Mérida). Considerada a origem
ancestral de Portugal, foi aí que pontuou o nosso ilustre antepassado
Viriato, um dos mais destacados líderes no combate aos romanos,
infligindo várias derrotas às tropas romanas na região da periferia
andaluza até ser morto à traição, tornando-se um mito da resistência
peninsular e um herói aclamado (mas pouco) ainda hoje na nossa Cidade.
A
Lusitânia da História Moderna, ao contrário da anterior, tanto quanto
se me é dado a perceber, consegue resumir-se em poucas linhas e, nelas a
glória e a exaltação dos valores maiores da Humanidade não servirá de
referência sendo que, estou em crer, mais que um historiador, um juiz
seria a pessoa indicada para refazer essas páginas da “estória”, dessa
que foi ou é, uma agência de desenvolvimento regional que executou
vários milhões de euros de fundos comunitários vaporizando-os em
projectos virtuais e outros tantos bytes digitais que o éter cibernético
se encarregou de evaporar, sem que deles fique vestígio ou lustre.
Mas,
vamos aos factos do que é público conhecimento para melhor compreensão
do leitor, deixando de lado o que “à boca pequena” se conta e que
resulta, na minha modesta opinião, da ausência de explicação séria e
transparente da gestão e actividade da Lusitânia, ADR até porque “à
mulher de César não basta ser, terá que parecer”.
A Lusitânia
constituiu-se como uma agência de desenvolvimento regional sob a forma
de entidade privada de direito público, sem fins lucrativos, com
objectivos de identificar problemas e oportunidades de desenvolvimento,
global e sectorial existentes na NUT III Dão-Lafões (15 municípios) e
NUT III (1 município) e tinha como áreas estratégicas de intervenção o
sector florestal, a sociedade da informação e a modernização autárquica,
em que os seus objectivos operacionais visavam entre outros, promover e
gerir projectos de desenvolvimento ou de promover a região e os seus
recursos, organização que a ter alcançado tais premissas, não deveria
ter sido alvo de noticias como aquela que, a 26 de Janeiro deste ano,
titulava no DN “Lusitânia – 25 milhões sem rasto”!
Segundo aquela
noticia desde 2002, que a agência terá contado com mais de 25 milhões de
euros provenientes de fundos comunitários, públicos e municipais para
desenvolver projectos para a sociedade de informação, que nunca chegaram
a ser concluídos, não se conhecem ou que não estão em funcionamento
sendo que aquela data só era conhecida a aprovação de um único relatório
e contas relativo ao ano de 2005, aquando a apresentação do programa
Viseu Digital, num projecto orçado em 12 milhões de euros. Destas
contas, e no âmbito desse projecto Viseu Digital, realçam-se os factos
de ter sido pago ao gestor executivo do programa um vencimento de mais
de 6900 euros mês, 3100 euros ao director financeiro colocado a meio
tempo, assim como gastos em compras de portáteis de 5000 euros ou de um
aluguer de um auditório, a um dos sócios da agência por cerca de 12 mil
euros dia. E aqui chegados fica a pergunta como é que apesar deste
histórico, pouco abonatório para a agência, o Governo do esbanjador
engenheiro, concedeu à Lusitânia o estatuto de utilidade pública, tendo
despachado em 2009, através da Presidência de Conselho de Ministros, a
alteração dos estatutos para assegurar uma gestão privada, facto que
nunca se terá verificado. E as questões e dúvidas sucedem-se como as de
saber porque razão só agora foram aprovadas as contas e relatórios de
gestão ou, o motivo porque os auditores insistem que só se pronunciaram
sobre os documentos que lhes foram apresentados dando a perceber que
haveria porventura outras realidades por apreciar, ou saber se algum
leitor já tropeçou nalgum dos 38 pontos de acesso á internet
disponibilizados pela agência, ou porque razão em 2005 a Câmara
Municipal de Viseu transferiu 217.724,00 euros, para efectuar os
pagamentos mensais correspondentes aos encargos comuns: da estrutura,
fundamentalmente os custos com o pessoal, do Portal Regional, Governo
Electrónico (...) e Data Center (deliberação de Câmara n.º 1452, de 29
de Dezembro de 2005) e se estes custos de pessoal apesar da agência
deter autonomia administrativa também foram suportados pelos demais
parceiros, ou o que é a Rede Regional de Desenvolvimento Sustentável que
orçou em 2,1 milhões de euros, ou onde estão os sites do Museu Virtual
de Grão Vasco e Almeida Moreira, ou os 13 sites ligados por fibra
óptica cujo investimento só no Município de Viseu foi de 215.384,30
euros, ou porque sendo a agência considerada sustentável financeiramente
em 2008 pelos auditores deixa de o ser nos anos seguintes, ou quem vai
ficar com os proveitos dos contratos celebrados com a Portugal Telecom
após 2010, ou quem vai resolver a problemática da divida da conta de
clientes, ou o que resultou dos "projectos implementados" para além dos 3
jantares que constam do programa Perspectivas de Desenvolvimento, ou
qual a aplicação prática de aplicações como o Sistema de Informação para
a Prevenção Florestal que terá custado 12 milhões de euros e onde se
pode verificar o seu funcionamento, ou para rematar, se tudo isto não
passa de meras suposições e elucubração de alguém de critica fácil
porque razão entenderam as autoridades abrir uma averiguação preventiva à
agência?
A Direcção veio em Fevereiro passado desmentir em
conferência de imprensa algumas destas irregularidades apontadas, dar
exígua e envergonhada resposta a outras tendo-se comprometido a divulgar
os relatórios de gestão e contas e demais auditorias facto que, meio
ano depois, veio a acontecer após ter sido alvo de várias referências em
editorial deste Jornal do Centro e motivo de perguntas ao Governo, por
parte dos deputados de Viseu das bancadas do CDS e do PS já que,
venha-se lá a saber porquê o PSD se arredou desta problemática e se
parece arrepiar cada vez que se toca na ferida! Corre na Internet uma
petição para que no retomar dos trabalhos parlamentares os nossos
deputados voltem procurar resposta cabal e transparente a estas dúvidas
pois, em último recurso, deles se espera a “eficiência” que se impõe a
todo agente público de realizar suas atribuições com clareza, perfeição e
honestidade funcional que não apenas com legalidade, exigindo
resultados positivos para o serviço público e satisfatório atendimento
das necessidades da comunidade e de seus membros.
A não ser assim,
iremos perpetuando no tempo estas lusitanas histórias em que, para
gáudio de uns poucos a “coisa pública” se torna um “paraíso” e, para os
muitos outros milhares de contribuintes não deixa de ser um imenso
“inferno” que terão que sofrer no bolso e na alma por muitas gerações!
