22/10/2011

A Universidade Pública de Viseu

Texto de opinião publicado na edição 495 do Jornal do Centro

O desiderato da criação da Universidade Pública em Viseu não daria para uma tese de mestrado, porque a qualidade dos seus intervenientes dificilmente a justificaria, mas certamente que, seria um bom “case study” para a cadeira de Ciência Política até porque no palco do teatro que tem sido este caso poucos são os políticos que não tenham já desempenhado ao longo dos anos o seu papel nesta espécie de tragicomédia!...
 O assunto é recorrente na afirmação da política local e assume, desde há uma década, diversos contornos e protagonistas, sem que em dia algum tenha conhecido a luz do dia, apesar da existência proclamada em Diário da República. Para aqueles que vão acompanhando com interesse este tema por certo se recordam dos "Olhares Cruzados sobre Viseu", ciclo de conferências que decorreu nesta cidade já lá vai uma boa meia dúzia de anos onde Fernando Ruas defendia a sua "dama" mas nem mesmo no tempo de governos da sua cor partidária a mesma passou do discurso político e, hoje, delas restam apenas um furtivos olhares sobre a cidade e as suas gentes. A Resolução de Conselho de Ministros, 67/2004 de 29 de Maio/04, tendo em conta o parecer da comissão e de todos os partidos com assento na Assembleia da República viabiliza o projecto de criação da Universidade Pública de Viseu deixado a cargo do Professor Veiga Simão, em pleno consulado de Durão Barroso, mas já antes António Guterres a tinha anunciado com pompa e circunstância, acabando depois por licenciar a Medicina na Universidade da Beira Interior, gerando animada manifestação de protesto dos viseenses no Rossio, se bem se recordam, mas que não passou da expressão do desagrado geral e, mesmo num «País de tanga», outras lá foram surgindo como cogumelos aqui ao lado, de Aveiro a Vila Real e à Covilhã, a somar às de Coimbra e do Porto. E, mais soluções foram sendo gizadas nas mentes iluminadas dos políticos locais e desde o ensino à distância da “universidade telemática”, da Universidade Aberta, da, imagine-se, «Universidade da Excelência» que antes de ser já o era, como se a excelência fosse uma qualidade passível de ser definida à partida só serviram para perder tempo e para demonstrar o provincianismo bacoco como os nossos eleitos percebem a região.
E nesta matéria, salvo melhor opinião, a culpa não fica só do lado da política, porque a Academia tem quota parte de responsabilidade na medida em que nunca quis ou não soube agarrar tal oportunidade. O Politécnico, enclausurado no seio de famílias quer tradicionais quer políticas, andou sempre hesitante perante diversas soluções e só a possibilidade de transformar o Presidente em «Magnífico Reitor» fez nascer a ideia que talvez a transformação em Universidade porventura poderia ser uma possibilidade, mas aí já era tarde e nunca os que com um pé na Universidade de Aveiro mas com os votos de Viseu permitiriam que tal se concretizasse. O Reitor da Universidade Católica com um discurso politicamente correcto na praça pública nunca escondeu contudo em privado que não havia espaço em Viseu para duas universidades e lá foi de forma velada ameaçando com o encerramento do Centro Regional das Beiras da Universidade Católica. O Instituto Piaget, geograficamente afastado do centro da cidade, sempre esteve mais virado para a sua visão da CPLP e a criação da Universidade Pública sempre se lhe ofereceu mais como uma possibilidade de adquirir igual estatuto semi-privado tal como a Católica do que em encontrar um parceiro de partilha de conhecimento na região.
E a estes acrescentam-se ainda os detractores da ideia (que argumentarão com relativa displicência) de que a Universidade Pública é apenas uma maneira fácil de contentar alguns viseenses mais exaltados e que Viseu já tem três estabelecimentos de ensino superior, sendo que essas escolas não atingiram os limites do seu crescimento, que uma universidade tem de ter professores e tem de ter alunos, que a ideia que uma universidade, através da investigação que pratica, é geradora de grande desenvolvimento local ainda está por provar e finalmente, há um último argumento, que, nesta altura de crise, pode até sobrelevar a todos os outros, pois uma boa universidade custa muito dinheiro, ainda por cima numa altura em que todos os estabelecimentos de ensino superior estão à míngua.
A resposta a esta argumentação é fácil de encontrar na dinâmica que Viseu já ganhou no nosso rectângulo lusitano e os dados dos últimos censos assim demonstram que do ponto de vista demográfico e académico é das regiões de maior densidade e um dos mais importantes centros urbanos: a centralidade geográfica, o cruzamento viário, a harmonia urbanística, o património histórico, a potencialidade turística e empresarial assim o demonstram, ficando apenas por resolver a questão mais crítica, sendo que a solução estará na mesma imaginação criadora dos políticos que para os impostos encontram sempre estratégias.
Mas, supondo que o milagre político de um honesto pacto de regime local à volta deste projecto aconteceria, que as gentes de Viseu assumiam essa visão estratégica para traçar e protagonizar contra todas as fatalidades, injustiças, marasmos, resignações e “ameaças” hegemónicas este destino comum, que o Estado entendia este investimento no conhecimento como fulcral, já que a aposta na ignorância sai bem mais cara, pois o Saber é, como nos mostram os tempos de globalidade, a irrevogável matriz do verdadeiro Poder, que Universidade quererá Viseu oferecer ao País, à CPLP e porque não à Europa?
Aqui chegados, teremos que ser ambiciosos e com uma visão mais alargada na construção da «Catedral do Conhecimento, do Saber e da Sabedoria», ao invés de mais uma «modesta igreja» na versão do tipo «mais do mesmo»... Pelo que não me ocorre melhor solução que plagiar o Dr. Fernando Paulo Baptista que, no seu “Tributo à Madre Lingua” (na certeza de que perdoará o abuso pela sincera estima e franca admiração que lhe dedico), nos oferece a solução inovadora de um «Instituto de Altos Estudos» com áreas-chave de intervenção, como por exemplo  a área da reflexão filosófico-espistemológica, antropológica e humanista, da formação pós-graduada e avançada (doutoramentos e pós-doutoramentos), da investigação integrada e da experimentação e aplicação científico-tecnológica, só por si capaz de dar "a visibilidade e a projecção” nacional e internacional que daí adviriam para a cidade de Viseu, ao ser transformada num irradiante e polifónico centro português e europeu de reflexão, formação, investigação e criação científicio-cultural”, sem que fosse concorrencial com as demais instaladas na região e em Portugal e, bem pelo contrário, fosse complementar delas mesmas, porquanto o seu espaço de recrutamento serão os alunos que ali finalizaram a sua formação ao nível da licenciatura e dos próprios mestrados e no «Instituto de Altos Estudos» procurariam aprofundar e cimentar os saberes já adquiridos em proveito individual e da sociedade onde pelo valor do trabalho se quererão afirmar.
Perdoem a análise simples e ligeira do tema, que o espaço de caracteres disponível forçosamente condiciona para poder dar voz a outros, mas, ainda assim, parece-me ter deixado matéria suficiente para reflexão e para relançar o desafio aos políticos e gente influente de Viseu, para que de novo nos façam acreditar e, como o poeta dizia, transformarem o sonho em realidade! Não se deixem uma vez mais cair de novo no entrópico buraco negro da demagogia e da hipocrisia política e sejam, como são a maioria dos viseenses, ambiciosos e voluntariosos pela região e exijam lá a «Catedral do Saber» e deixem-se lá de prometer capelinhas de fiéis servos de ignóbil ignorância... Disso já temos que chegue!