23/12/2011

Viseu, a nossa terra Natal

- Ah, com que então o meu amigo é da terra do “cão sim, homem não”?
Naquele dia em que a questão me foi colocada de forma algo jocosa optei pelo silêncio, face à minha confessa ignorância à data sobre tal epiteto, até porque em certas ocasiões é melhor ficar calado deixando que os outros pensem que se é um idiota, do que abrir a boca e não deixar dúvida alguma (Abraham Lincoln).

Por momentos, ainda pensei tratar-se de uma qualquer despropositada ou errónea referência aquiliana à cidade de “Viseu, enrodilhada em lindes tacanhas…que nem saudades deixa” mas foi na narrativa escrita por José de Castro, pseudónimo do saudoso Júlio Cruz, director do então Terra Lusitana que consegui satisfazer a curiosidade sobre tal provocação e que aqui vos transcrevo:
Conta-se que há muitos anos um abastado comerciante viseense que dedicava os seus tempos livres à caça ter-se-á perdido na Serra da Gralheira quando ali caçava na companhia do seu cão. Apanhados por uma tempestade, o comerciante e o cão perderam o rumo para a viatura e a tiritar de frio foram encontrados por um pastor que os levou para a sua enegrecida choupana, onde o borralho da lareira os aqueceu e a malga de caldo os reconfortou. No dia seguinte, já restabelecidos e com a ajuda do pastor lá encontraram o caminho para o automóvel que os conduziu à capital da Beira Alta. Antes de partir o comerciante agradecido convidou o pastor a visitá-lo quando ele fosse a Viseu. O pastor a contra-gosto lá aceitou embora dizendo que raramente ia à cidade. Quis no entanto o acaso que passados alguns meses o pastor fosse à terra de Viriato e lembrando-se do convite do comerciante lá se dirigiu a sua casa para o cumprimentar. Com as indicações que o comerciante lhe dera, o pastor, a custo lá encontrou a residência do homem que salvara na serra. Aí chegado tocou a campainha e esperou que lhe abrissem a porta. Segundos depois, a porta abriu-se e a empregada perguntou ao visitante ao que ia. O pastor explicou-lhe então a história passada na serra e pediu para falar com o comerciante. A empregada foi transmitir a mensagem e regressou com a informação de que o patrão não conhecia o pastor. Eis senão quando o cão do comerciante assume à porta e reconhecendo o pastor atirou-se a ele meigamente, lambendo-o, certamente lembrando-se de ter sido aquele o seu salvador naquele dia de tempestade. Perante este gesto o pastor virou-se para a empregada e disse-lhe:
- Muito obrigado, minha senhora. Estou satisfeito. Em Viseu, cão sim – homem não.
Depois do efeito de interiorização da lição moral vertida nesta fábula sobre a virtude da gratidão, que “é não só a maior de todas as virtudes, mas também a progenitora de todas as outras” como dizia Cícero e, sendo certo que o seu contrário, quando se manifesta, mesmo que seja uma só vez, entre os viseenses ou entre seja quem for, é uma vez a mais, pois só cobre o ingrato do maior opróbrio que se reflecte em toda a sua comunidade, estou em crer que a ter acontecido terá sido uma vez sem excepção até porque a cidade, se há característica que a diferencia positivamente é a forma hospitaleira e acolhedora como recebe quem nos visita ou de quem dela algo precisa. Nos últimos tempos, Viseu tem sido palco dos mais variados eventos nos quais têm participado grande número de cidadãos muitos dos quais estrangeiros e, bastará ficar atento ao registo das expressões de singular apreço que manifestam para, sem falsa modéstia ou qualquer pretensiosismo, continuarmos orgulhosamente e até com certa vaidade a afirmar que “quem nunca viu Viseu não sabe o que perdeu”.
É certo que para muitos Viseu é ainda uma cidade desconhecida e, paradoxalmente mais ainda para alguns dos que a escolheram para viver, cientes que Grão Vasco é uma conhecida marca de vinhos, que Viriato é um bolo das pastelarias viseenses, que o Palácio do Gelo é local de romaria obrigatória no fim de semana ou que o Hilário é o chato vizinho do lado mas, não reconhecer que a cidade e as suas gentes transpiram simpatia e hospitalidade é acto de profunda ingratidão… sentimento que na quadra que vivemos, embora nela tropecemos em cada esquina, devemos esconjurar. Com o que tem muito de bom e pouco de mau, Viseu é uma cidade onde dá gosto viver e que, deixa vontade de regressar a quem nos visita, porque a eles lhes é oferecido o melhor do nosso património histórico e cultural além da excepcional gastronomia regional regada com as melhores “águas do Dão”… e assim sendo, nem seria preciso mais mas, Viseu ainda lhes oferenda o melhor da generosidade e urbanidade das suas gentes. E, como cá por casa não há cão nem criada sempre que baterem á porta continuarei com gosto a dizer seja bem vindo a quem vier por bem… é assim que a cidade recebe nesta quadra ou fora dela porque em qualquer dia do ano, Viseu é a nossa terra Natal!
Boas Festas!

(Texto de opinião publicado na edição 510 de 23 de Dezembro do Jornal do Centro!)