Texto de opinião publicado na edição 495 do Jornal do Centro
O desiderato da criação da Universidade Pública em Viseu não daria
para uma tese de mestrado, porque a qualidade dos seus intervenientes
dificilmente a justificaria, mas certamente que, seria um bom “case
study” para a cadeira de Ciência Política até porque no palco do teatro
que tem sido este caso poucos são os políticos que não tenham já
desempenhado ao longo dos anos o seu papel nesta espécie de
tragicomédia!...
O assunto é recorrente na afirmação da política
local e assume, desde há uma década, diversos contornos e protagonistas,
sem que em dia algum tenha conhecido a luz do dia, apesar da existência
proclamada em Diário da República. Para aqueles que vão acompanhando
com interesse este tema por certo se recordam dos "Olhares Cruzados
sobre Viseu", ciclo de conferências que decorreu nesta cidade já lá vai
uma boa meia dúzia de anos onde Fernando Ruas defendia a sua "dama" mas
nem mesmo no tempo de governos da sua cor partidária a mesma passou do
discurso político e, hoje, delas restam apenas um furtivos olhares sobre
a cidade e as suas gentes. A Resolução de Conselho de Ministros,
67/2004 de 29 de Maio/04, tendo em conta o parecer da comissão e de
todos os partidos com assento na Assembleia da República viabiliza o
projecto de criação da Universidade Pública de Viseu deixado a cargo do
Professor Veiga Simão, em pleno consulado de Durão Barroso, mas já antes
António Guterres a tinha anunciado com pompa e circunstância, acabando
depois por licenciar a Medicina na Universidade da Beira Interior,
gerando animada manifestação de protesto dos viseenses no Rossio, se bem
se recordam, mas que não passou da expressão do desagrado geral e,
mesmo num «País de tanga», outras lá foram surgindo como cogumelos aqui
ao lado, de Aveiro a Vila Real e à Covilhã, a somar às de Coimbra e do
Porto. E, mais soluções foram sendo gizadas nas mentes iluminadas dos
políticos locais e desde o ensino à distância da “universidade
telemática”, da Universidade Aberta, da, imagine-se, «Universidade da
Excelência» que antes de ser já o era, como se a excelência fosse uma
qualidade passível de ser definida à partida só serviram para perder
tempo e para demonstrar o provincianismo bacoco como os nossos eleitos
percebem a região.
E nesta matéria, salvo melhor opinião, a culpa
não fica só do lado da política, porque a Academia tem quota parte de
responsabilidade na medida em que nunca quis ou não soube agarrar tal
oportunidade. O Politécnico, enclausurado no seio de famílias quer
tradicionais quer políticas, andou sempre hesitante perante diversas
soluções e só a possibilidade de transformar o Presidente em «Magnífico
Reitor» fez nascer a ideia que talvez a transformação em Universidade
porventura poderia ser uma possibilidade, mas aí já era tarde e nunca os
que com um pé na Universidade de Aveiro mas com os votos de Viseu
permitiriam que tal se concretizasse. O Reitor da Universidade Católica
com um discurso politicamente correcto na praça pública nunca escondeu
contudo em privado que não havia espaço em Viseu para duas universidades
e lá foi de forma velada ameaçando com o encerramento do Centro
Regional das Beiras da Universidade Católica. O Instituto Piaget,
geograficamente afastado do centro da cidade, sempre esteve mais virado
para a sua visão da CPLP e a criação da Universidade Pública sempre se
lhe ofereceu mais como uma possibilidade de adquirir igual estatuto
semi-privado tal como a Católica do que em encontrar um parceiro de
partilha de conhecimento na região.
E a estes acrescentam-se ainda
os detractores da ideia (que argumentarão com relativa displicência) de
que a Universidade Pública é apenas uma maneira fácil de contentar
alguns viseenses mais exaltados e que Viseu já tem três estabelecimentos
de ensino superior, sendo que essas escolas não atingiram os limites do
seu crescimento, que uma universidade tem de ter professores e tem de
ter alunos, que a ideia que uma universidade, através da investigação
que pratica, é geradora de grande desenvolvimento local ainda está por
provar e finalmente, há um último argumento, que, nesta altura de crise,
pode até sobrelevar a todos os outros, pois uma boa universidade custa
muito dinheiro, ainda por cima numa altura em que todos os
estabelecimentos de ensino superior estão à míngua.
A resposta a
esta argumentação é fácil de encontrar na dinâmica que Viseu já ganhou
no nosso rectângulo lusitano e os dados dos últimos censos assim
demonstram que do ponto de vista demográfico e académico é das regiões
de maior densidade e um dos mais importantes centros urbanos: a
centralidade geográfica, o cruzamento viário, a harmonia urbanística, o
património histórico, a potencialidade turística e empresarial assim o
demonstram, ficando apenas por resolver a questão mais crítica, sendo
que a solução estará na mesma imaginação criadora dos políticos que para
os impostos encontram sempre estratégias.
Mas, supondo que o
milagre político de um honesto pacto de regime local à volta deste
projecto aconteceria, que as gentes de Viseu assumiam essa visão
estratégica para traçar e protagonizar contra todas as fatalidades,
injustiças, marasmos, resignações e “ameaças” hegemónicas este destino
comum, que o Estado entendia este investimento no conhecimento como
fulcral, já que a aposta na ignorância sai bem mais cara, pois o Saber
é, como nos mostram os tempos de globalidade, a irrevogável matriz do
verdadeiro Poder, que Universidade quererá Viseu oferecer ao País, à
CPLP e porque não à Europa?
Aqui chegados, teremos que ser
ambiciosos e com uma visão mais alargada na construção da «Catedral do
Conhecimento, do Saber e da Sabedoria», ao invés de mais uma «modesta
igreja» na versão do tipo «mais do mesmo»... Pelo que não me ocorre
melhor solução que plagiar o Dr. Fernando Paulo Baptista que, no seu
“Tributo à Madre Lingua” (na certeza de que perdoará o abuso pela
sincera estima e franca admiração que lhe dedico), nos oferece a solução
inovadora de um «Instituto de Altos Estudos» com áreas-chave de
intervenção, como por exemplo a área da reflexão
filosófico-espistemológica, antropológica e humanista, da formação
pós-graduada e avançada (doutoramentos e pós-doutoramentos), da
investigação integrada e da experimentação e aplicação
científico-tecnológica, só por si capaz de dar "a visibilidade e a
projecção” nacional e internacional que daí adviriam para a cidade de
Viseu, ao ser transformada num irradiante e polifónico centro português e
europeu de reflexão, formação, investigação e criação
científicio-cultural”, sem que fosse concorrencial com as demais
instaladas na região e em Portugal e, bem pelo contrário, fosse
complementar delas mesmas, porquanto o seu espaço de recrutamento serão
os alunos que ali finalizaram a sua formação ao nível da licenciatura e
dos próprios mestrados e no «Instituto de Altos Estudos» procurariam
aprofundar e cimentar os saberes já adquiridos em proveito individual e
da sociedade onde pelo valor do trabalho se quererão afirmar.
Perdoem
a análise simples e ligeira do tema, que o espaço de caracteres
disponível forçosamente condiciona para poder dar voz a outros, mas,
ainda assim, parece-me ter deixado matéria suficiente para reflexão e
para relançar o desafio aos políticos e gente influente de Viseu, para
que de novo nos façam acreditar e, como o poeta dizia, transformarem o
sonho em realidade! Não se deixem uma vez mais cair de novo no entrópico
buraco negro da demagogia e da hipocrisia política e sejam, como são a
maioria dos viseenses, ambiciosos e voluntariosos pela região e exijam
lá a «Catedral do Saber» e deixem-se lá de prometer capelinhas de fiéis
servos de ignóbil ignorância... Disso já temos que chegue!






