27/01/2012

O melhor é o Dão!

Texto de opinião publicado na edição 515 de 27Jan do Jornal do Centro

“Tudo nestas paragens são grandezas”, assim escreveu José Saramago a propósito de uma sua passagem pela nossa bela região. E, assim é de facto, mas se assim não fosse e tudo fossem tristezas ainda teríamos por cá o milenar vinho do Dão, herança dos antigos monges agricultores continuada hoje por muitos bons produtores nas nobres cepas plantadas que se alimentam de um certo tipo de solo e “bebem” um determinado tipo de sol: instalam-se em encostas viradas a sudoeste e alimentam-se no granito porfiróide facilmente atacado pelos agentes atmosféricos que se transforma em terra com relativa facilidade, o que não significa que a plantação da vinha do Dão tivesse sido tarefa fácil. Antes pelo contrário e como diz o reconhecido produtor Arqº. José Perdigão “o Dão foi em tempos uma epopeia e é hoje uma arte com paixão”.

Mas, nem sempre assim foi e por muito bons que sejam, e são, os vinhos do Dão quase exigem hoje uma “certidão de nascimento”, para termos a certeza de que vamos degustar um néctar capaz de fazer jus à fama de que goza. Há uns anos a esta parte, quando a procura respondeu à indesmentível qualidade do Dão, os produtores confrontaram-se com a realidade de não disporem de oferta suficiente e a partir daí, “toda a uva era boa para fazer vinho do Dão” havendo até quem “milagres” fizesse nesta matéria, o que levou a que aquilo que constituía uma fonte de rendimento segura, passasse a ser mera recordação de um lucro fácil e imediato, mas perecível. A situação já está hoje mais corrigida, talvez não completamente mas a CVRDão agora com a presidência do Dr. Arlindo Cunha, também ele produtor e profundo conhecedor do néctar beirão está a inverter esse estigma.
Hoje, o Dão é já uma “marca” reconhecida onde encontramos os vinhos adultos, cheios de sabor e acessíveis a par de vinhos jovens, autênticos, mas deliciosos que dizem muito sobre o seu local de origem e que já são apreciados pela nova geração de conhecedores onde se incluem e bem as mulheres. A pureza dos frutos vermelhos do vinho, a sua capacidade de reter o refinado dos aromas numa idade em que para muitos apreciadores “o poder equivale à qualidade”, a característica única da nossa melhor cepa registada a Touriga Nacional, torna-os vinhos que podem ser bebidos com facilidade sem a monotonia que rapidamente vem com os vinhos de outras regiões, dado que muitos dos produtores de topo apostam mais e bem na pureza e elegância dos aromas em detrimento de concentração e álcool. O Dão é uma das mais antigas e tradicionais regiões vitícolas o que a torna deliciosamente fotogénica mas a legislação vitivinícola da região criou enormes frustrações para produtores profissionais preocupados com a qualidade e só lentamente foi saindo da idade das trevas vitícola pré 1974. A estrutura monolítica da indústria vinícola implicou que a região tenha uma imagem atrasada uns anos relativamente a outras regiões mais dinâmicas e a sua imagem pública ainda está atrás de algumas das outras, apesar da modificação verificada nos vinhos e do reconhecimento obtido pela melhoria de qualidade ao longo dos últimos anos. Na minha modesta e leiga opinião, o Dão precisa de encontrar um equilíbrio sustentado onde preço, líquido e apresentação participem na mesma igual medida de afirmação no mercado interno mas sobretudo externo. Salvo raras excepção de alguns vinhos premiados com preços exorbitantes, a maioria dos vinhos Dão são, acertadamente, considerados uma boa relação qualidade/preço e tratando-se de uma região com História e tradição não creio que tenha condições naturais para fazer vinhos muito baratos. Os vinhos baratos do Dão por norma não são agradáveis ao palato pois são pouco encorpados, magros e adstringentes e o mercado barato oferece escolhas noutras regiões onde os taninos e a acidez não são tão predominantes. Já quanto ao líquido, a região tem um grande “terroir” onde a base granítica combinada por vezes com altitude, parece preservar a frescura e os vibrantes aromas a ameixa e frutos vermelhos, tão fundamentais no carácter de um tinto do Dão. É certo que muitas das características do Dão não são para principiantes pois há um elemento de austeridade, delicadeza e secura que apelam à experiência do conhecedor para encontrar elegância e complexidade, mas que os pode acusar de faltar generosidade, redondez, gordura, carácter doce e frutado, características procuradas por muitos dos novos consumidores, e que são facilmente encontradas nos vinhos de outras regiões mas é aqui que cabe a arte e paixão do produtor em conseguir conciliar a procura com a qualidade, sobretudo nos vinhos do Dão que almejam mercados de exportação que poderiam ser feitos de um modo mais suave, delicado sem perderem a sua tipicidade. Já quanto à apresentação convêm lembrar que toda a gente aprecia tradição e isto pode ser usado, mas há uma ténue divisória entre tradição e “à moda antiga”. Tradição é bom, “à moda antiga” não o é pelo que nem sempre um rótulo que funciona num restaurante em Viseu funcionará numa loja de vinhos na China, por exemplo. Importa também aqui encontrar o equilíbrio entre a herança da tradição sem deixar de reflectir os gostos modernos sob pena de perder cota de mercado, como resultado da lentidão na modernização da produção e marketing. O futuro parece estar em continuar a produzir cada vez mais vinhos artesanais de alta qualidade, abraçando modernas técnicas de produção e inovadores métodos de marketing retendo o conceito do Dão como farol.
Creio que esta é também a linha orientadora da nova gestão da CVRDão e bastará uma leitura atenta do Programa de Actividades e Orçamento para 2012 para se perceber que os 3 eixos escolhidos, se correctamente aplicados e devidamente participados por todos os agentes envolvidos, colocarão o Dão num patamar superior de excelência e reconhecimento. Assim, a organização proposta pela CVRDão de uma reflexão estruturada sobre os procedimentos de certificação e controlo, bem como de um vasto conjunto de matérias relacionadas com o regulamento da Região Demarcada conseguirá outra normalização interna em paralelo com a segunda linha de acção que consistirá na continuação do processo de racionalização e modernização de gestão, que permitirá uma considerável desmaterialização de documentos, traduzindo-se também em economias de custos. A terceira grande linha de acção prioritária incidirá sobre as actividades de promoção e de informação aos agentes económicos com o reforço da área de comunicação e marketing. E, honra seja feita, isso já tem estado a acontecer e acções de promoção da CVRDão em mercados externos como Angola e Brasil, além da visita de comitivas de jornalistas e importadores dos Estados Unidos, Canadá e ainda recentemente da Rússia. É, salvo melhor opinião, este o caminho para uma maior afirmação deste “cluster” regional. Ou será que alguém de boa fé duvida que o Dão tem por si só potencial para preencher por completo o pavilhão principal durante a Feira de São Mateus e dessa forma promover o que de melhor temos para oferecer aos visitantes em vez do colchão ortopédico ou da costumeira banheira de hidromassagem? Cá dentro e mais ainda lá fora o Dão é imagem de marca a afirmar e a aconselhar a amigos e conhecidos pois são do melhor que há em Portugal e já agora, deixem-nos ser vaidosos, do Mundo.
(...)
Nota: Enquanto a linha editorial do Jornal do Centro o permitir continuarei a respeitar a Língua Portuguesa ignorando o novo Acordo Ortográfico. No dia que assim não for, não incomodarei mais o leitor…