04/02/2012

O reumatismo das máquinas

Texto de opinião publicado na edição 516 de 03Fev do Jornal do Centro.

Embora sem grandes alardes e com poucos dos muitos interessados a assumirem-se publicamente na cidade mas, por aqui e por ali, são vários os rumores sobre as intrínsecas lutas que, nos bastidores já se travam pelas concelhias dos dois maiores partidos, PSD e PS que em breve irão a votos em Viseu. Alguns sinais de reflexão já foram deixados até aqui neste Jornal por outros colaboradores como o Rui Santos num texto de opinião virado internamente para o PS mas que, não faria mal nenhum ao PSD local que o soubesse reler na mesma lógica, salvaguardadas as poucas diferenças ideológicas apontadas além do desafio muito claro e fulcral, na minha óptica, que o Joaquim Alexandre Rodrigues deixa ao PS Viseu para que se descolem dos “desertores” que só conhecem os viseenses em épocas pré-eleitorais e também aqui, a chapelada assenta com o devido ajuste ao PSD Viseu que faria bem em recordar-se de certos “paraquedistas” que só conhecem Viseu no dia da contagem dos votos. 
 
Estou porém em crer que, aqueles apelos à necessária “catarse” tal como este meu exercício de escrita não deixarão de ser isso mesmo pois, diz a norma, que infelizmente estas lideranças não gostam de reconhecer erros nem de reflectir sobre eles e esse, entre outros, é um dos graves problemas do nosso sistema político. Vivemos na permanente luta entre o bem e o mal, que vão variando conforme os resultados eleitorais – a promessa de ontem é o imposto de hoje, a esperança votada no passado é a triste realidade da crise actual, em suma, o bem de outrora é o mal de agora e por aí adiante. Emperradas neste esquizofrénico sistema não chegará às Concelhias Partidárias perguntarem como fazer diferente no futuro, é importante que recordem como aqui chegaram porque dificilmente aqueles que aqui nos trouxeram por este caminho irão escolher outro melhor para dele sairmos… não vão porque não conhecem outro! Foram curtos de vista, mais preocupados com a satisfação pessoal que com os desígnios de um colectivo e perigosamente atrevidos como só a medíocre ignorância é capaz de o ser!
O PS que me recorde nunca participou por cá da decisão, mantendo um poder de oposição de fachada, ineficaz, inexequível, que ao nada acrescenta nada, que reage ao invés de agir, que preocupado em instalar os seus não escrutina a actuação social democrata, que como água se infiltra nas estruturas do poder local tornando-o um edifício em perigo futuro de colapso, que relega os viseenses seus eleitores para segundo plano preferindo numa permanente atitude de negação da realidade assumir a patética identidade do Mohamed Said Al-Sahaf, aka Ali o Comediante e Ministro da Propaganda de Saddam, servir de emplastro a António José Seguro ou ainda pavonear por Bruxelas o charme burguês e a empertigada figura.
O PSD está desnorteado e já dividido, sem revitalização visível, castrado pela figura paternal e autocrática do seu líder espiritual pelo qual todas as decisões passam sem que com nenhuma se comprometa e que, ao fim de tantos anos já não distingue carisma de populismo, praticando uma espécie de despotismo da oposição e secando o partido internamente de soluções de continuidade e de evolução obrigando-o a passar pela difícil necessidade de se renovar sem mudar nada do legado. Num mandato sem programa digno disso ser chamado, onde as obras faraónicas e as praias solarengas ficam sine dia adiadas (e oxalá para sempre!), sem visão estratégica de desenvolvimento sustentado, sem capacidade de atracção de investimento empresarial, sem posicionamento estrutural, incapaz de proceder a uma leitura atenta e ágil dos problemas do município, das necessidades e das potencialidades, das desvantagens e das vantagens, enfim, sem saber desenhar sequer um plano de rumo vai ser difícil com esta “gestão à moda do PSD” fazer chegar o navio a bom porto sem muitas avarias na casa das máquinas ainda que um ou outro timoneiro dos antigos tenha que ficar vigilante na cabine por ordem do patrão da embarcação local, não vá dar-se o caso de alguém o conduzir até ao Cabo das Tormentas!
Estou em crer que, com maior ou menor acuidade, os responsáveis locais têm este diagnóstico mais que afinado mas, e continuando na onda da mesma terminologia, também sabem o quão difícil é cortar as amarras… sabem precisar de novas ideias para levar de vencida as tempestades que se desenharão no horizonte temporal dos próximos anos, sabem precisar de novos líderes desempoeirados no pensar e ágeis no agir, capazes de ler nos olhos dos viseenses as angústias e as dificuldades e de num mesmo olhar lhes devolver a esperança e a certeza no futuro, descomprometidos de interesses pessoais e profundamente amarrados ao desenvolvimento da região, despreocupados com o emprego da família e amigos e absolutamente focados na procura de um local de trabalho para cada viseense. Sabem tudo isso mas fazem por ignorá-lo porque temem perder o status quo, a segurança alcançada dos que lhe são suporte próximo e o reconhecimento ainda que irreal que o cargo lhes oferece até porque forjados desde as juventudes partidárias na máquina politica todo o universo exterior lhes suscita o medo de verem reconhecida a sua incompetência e o seu nulo valor social. Mas ao mesmo tempo sabem o quão necessária é nesta altura cortar esse cordão umbilical, credibilizar a politica e recuperar a sã cidadania participativa a favor da urbe, do crescimento económico e da recuperação do bem estar social. E também sabem que entre os viseenses há homens e mulheres de valor, de reconhecida capacidade e competência dentro e fora da esfera partidária capazes de liderar tal mudança mas, poucos serão os que queiram agarrar o leme sem a cobertura de uma visão pragmática de um programa realista para a cidade e sem o lastro de valores éticos, morais e sociais que não afundem o navio na trampa do vazio ideológico por onde tem navegado.
Mais do mesmo é insistir no erro, é continuar a embarcar na fulanização das ideias, na mesquinhez da falta de valores, na mediocridade da política falsa de fachada, nas discussões fúteis sem utilidade possível… é ao fim e ao cabo dissipar à partida qualquer tentativa de continuar a mudar Viseu para melhor. E isso poderá ser penalizador para as Concelhias porque as restantes forças vão procurar mobilizar-se e explorar a “janela de oportunidade” e quem sabe, tal não abra até espaço para outras ondas de cidadania galvanizando os viseenses através de um projecto de honestidade democrática e de realística execução mas, futurologia não cabe aqui e nem o Jornal do Centro me paga o que a TVI paga ao Prof Marcelo para aventar cenários…