22/03/2012

Com ele sim, sem ele não!

Texto de opinião publicado na edição 523 de 22Mar do Jornal do Centro

Nem com eles, nem sem eles! Nesta frase se poderia de forma simplória resumir a relação que muitos cidadãos têm com a comunicação social pesando apenas as vantagens e inconvenientes da mesma, mas sem majorar os benefícios intangíveis da mesma. De facto, não basta estar informado ou ter acesso à informação para que se esteja consciente do que quer que seja. Mas sublinhe-se que o ter acesso a essa informação e estar informado possibilita desde logo uma abertura de horizontes, que é um ponto de partida para o conhecimento e para a expressão de uma cidadania participativa. Por cá temos assistido, nos últimos tempos, a um fecho de portas nalguns órgãos de comunicação social local e os que ainda subsistem deixam no ar a sensação de que não resistirão muito mais e em breve será mais sem eles que com eles. Até mesmo aqueles para quem isso possa ser indiferente perceberão a sua falta no dia em que o mudo silêncio da ignorância abafar o saudável ruído da comunicação. Por acaso, já imaginaram o que será vir a conhecer a vida da cidade apenas pela informação dos órgãos oficiais dos partidos, dos boletins e newsletters das instituições ou pior que isso apenas pela informação online como a sempre tendenciosa do blog Viseu Senhora da Beira, daquela sem ponta por onde se lhe pegue como d’O Rotundas ou pior ainda pelo “boato do diz que disse das 4 esquinas”? Voltaríamos aos tempos da era medieval, vivendo na globalidade cibernética, no entanto incapazes de destrinçar o real do virtual e muito próximos do pior dos cenários orwellianos! É por isso que também precisamos da imprensa local, para pensar global sem perdermos a capacidade de participação local.



A necessidade de comunicar é um dos impulsos primários do homem. Os jornais são parte integrante das sociedades desde aproximadamente o Séc XVII e o seu primeiro objectivo passa por informar e esclarecer a opinião pública. O jornal, de forma meritória, instituiu-se como o “quarto poder” e afirmou-se como um elemento indispensável para o controlo e manutenção da democracia. No dia em que é lançado um novo jornal local, a região, os leitores, bem como a população em geral ficam a ganhar mais e melhor informação. Foi isso que aconteceu precisamente há uma década em Viseu, com a criação do Jornal do Centro. Nos tempos que correm, tendo em conta o clima económico, uma publicação semanal de âmbito local atingir esta meta de presença contínua nas bancas é uma marca digna de registo, e como tal o Jornal do Centro está de parabéns.

A última década foi um período de mudanças, desde logo na forma de comunicação com o público, e a comunicação social local também se ressentiu disso. Vivemos numa sociedade em constante mutação, na qual tudo o que existe é efémero e de consumo imediato, sendo a superficialidade, a aparência e a ignorância, expressa no “sound bite”, os atributos mais largamente valorizados. A imprensa escrita, reflexo destes tempos, também vive em crise; de grosso modo a qualidade da informação piorou e assistimos à tabloidização do jornalismo. Muitos acreditam, outros desejam que a imprensa seja uma indústria às portas da extinção e o jornal uma relíquia apenas disponível em museu. Mas a ideia da “morte” da imprensa escrita é antiga, nunca se tendo confirmado, nem com o advento da rádio, nem mais tarde com a chegada da televisão e por último com a informatização da comunicação. Quais fotografias de antepassados que apenas nos recordam a efemeridade das coisas! Os jornais sobrevivem aos tempos, às ideias e aos Homens e assim continuará a ser. É lugar comum assumir-se que, entre a população mais jovem, a informação chega maioritariamente via Internet e que os menos jovens preferem a informação televisiva, mas o jornal continua a ter o seu espaço, tendo contudo que se adaptar às novas realidades. Numa sociedade que lê menos e lê pior, o novo paradigma da comunicação passa por responder à questão: Como encontrar novos públicos e novas formas de comunicar? Provavelmente a resposta passa por aproveitar o que de melhor a tecnologia tem para nos oferecer e aumentar a complementaridade entre diversos formatos, o papel, o digital, o visual e o sonoro. Apesar de ter perdido o domínio exclusivo da comunicação, o papel da imprensa escrita continuará a ser imprescindível, mesmo na sociedade digitalizada. Será importante também reforçar a aposta na qualidade dos conteúdos, pois o grau de exigência e de conhecimento dos leitores fiéis aumentou. Creio por isso que para se continuar a afirmar como jornalismo de referência por mais dez anos, o Jornal do Centro terá de: fazer uma aposta no reforço da qualidade ao nível da informação e entrevistas; aumentar a exigência, o rigor, a objectividade; procurar exercer o contraditório; procurar ser contrapoder; dar múltiplas visões sobre o mesmo tema; nunca se render ao sensacionalismo e rejeitar o jornalismo tablóide. Se assim for, com ele todos ganharemos, sem ele todos perderemos!

Nos próximos dez anos há muito por fazer, para denunciar, para escrever, muitos combates para travar e muitas ideias feitas à espera de serem desmontadas. Uma cidade como Viseu, que se procura afirmar líder, forte, democrática, informada, culta, arrojada e atenta, necessita de um Jornal com as mesmas características! É isso que todos esperamos do Jornal do Centro.