16/03/2012

Pensando à volta da rotunda!

Texto de opinião publicado na edição 522 de 16Mar do Jornal do Centro

O que têm de comum os movimentos de um carrossel, uma máquina de lavar a roupa ou um automóvel a contornar uma das muitas rotundas da cidade?
Fácil não é? Em todos esses movimentos é possível distinguir a existência de dois estímulos opostos. São de forma simples o resultado de duas acções a que se chama força centrífuga e força centrípeta e como são opostas provocam o que os físicos classificam de inércia.
Por essa razão, um veículo ao contornar as rotundas da cidade, exerce uma força centrípeta, para dentro, sobre o corpo. Já o corpo opõe-se a ser puxado lateralmente e, de acordo com a terceira lei de Newton, exerce uma força para fora, a força centrífuga, igual e oposta à força centrípeta; uma age no corpo, a outra age no carro, se a memória não me falha nesta breve explicação. Temos pois que a inércia é uma propriedade física da matéria. Todos os corpos são preguiçosos e não desejam modificar o seu estado de movimento: se estão em movimento, querem continuar em movimento; se estão parados, não desejam mover-se. E aqui chegados pergunto se já repararam que a cidade numa perspectiva aérea parece ela mesma uma gigantesca rotunda? Está então encontrada a razão para a existência de alguma inércia que tolhe o desenvolvimento e a capacidade de afirmação positiva da cidade?



Não, essa seria uma conclusão demasiado redutora. Proponho então um exercício ao leitor: Recuemos no tempo até à epopeia romana. De facto, encontramos já nessa altura um cruzamento de importantes vias de comunicação que aqui em Vissaium se materializavam, através das quais se afirmava a importância geo-estratégica da região. Viseu era a origem, ponto de passagem e destino de inúmeros produtos comerciais, de múltiplas culturas e saberes que em muito enriqueceram o País. Muitos anos mais tarde C. Seixas In, “Album de Vizeu” (1884) escrevia que “Vizeu conta uns nove mil habitantes. E’muito sadia, farta d’aguas excellentes e de todos os productos agrícolas do nosso paiz. Tem arrabaldes lindíssimos, amenos e pittorescos. De alguns sítios disfructam-se panoramas surprehendentes. (…) Nas nossas luctas da liberdade, Vizeu apresentou-se como a cidade que mais filhos deu ao martyriologio politico. Emfim Vizeu tem glorias que outras terras invejariam e que são como que o padrão do patriotismo e dedicação de seus valentes filhos.” E, poderíamos continuar a percorrer a História de Viseu, desde Viriato passando por D. Duarte I, não esquecendo Vasco Fernandes, ou mesmo Emídio Navarro, até Álvaro Santos Pereira que sempre encontraríamos nos viseenses esta vontade indomável de vencer a inércia e de continuamente abrir novas perspectivas a esta encruzilhada de vontades e gentes beirãs. Talvez esta vontade de concretizar tenha sido a razão pela qual o nosso ilustre conterrâneo e actual Ministro da Economia nos deixou recentemente a promessa de que antes de acabar o mandato, será construída a Auto-Estrada portajada Viseu - Coimbra e posta a funcionar a linha de comboio, pelo que tendo em conta as últimas notícias estarão em breve ao serviço dos viseenses.

Mas, ironias à parte, verificada a feliz centralidade da posição geográfica de Viseu no rectângulo português, a meio caminho da capital e do eixo Porto-Vigo, a outro meio da Espanha e dos portos atlânticos (Fig. da Foz, Aveiro, Leixões). Inquestionada a qualidade intrínseca das gentes beirãs bem como o valor anímico dos viseenses de outrora e de agora o que nos impede de sermos o tal “Centro Liderante” sonhado por todos, prometido por poucos e cumprido por ninguém? O que nos falta para rentabilizar esta força centrífuga que nos impele a procurar novos mercados, novas oportunidades, novos desafios, novos saberes e novas culturas incorporando-as com toda a força centrípeta de igual valor no seio da nossa comunidade agora com mais de 99.000 habitantes oferecendo-lhes mais emprego, mais desenvolvimento, mais segurança, mais bem-estar, mais cultura, mais conhecimento, em duas palavras mais Viseu? Fica para vossa reflexão que eu vou dar mais uma volta à rotunda...