09/03/2012

Um retrato da semana política

Texto de opinião publicado na edição 521 de 09 de Março do Jornal do Centro

No último fim-de-semana, tiveram lugar as eleições para a comissão política concelhia do PSD que tristemente apenas vieram confirmar o que se suspeitava. A política local é uma ópera bufa e os actores são figuras menores. Estamos cada vez mais perto de 2013 mas a política local vive de expedientes próprios dos anos 80. Os nossos líderes (até me custa usar este termo assim de forma tão ligeira) convivem mal com a diferença de opinião ou qualquer tipo de oposição e nesta campanha imperou o boato, a mentira, o tacticismo, a intimidação e promiscuidade pelo que se entenderem perpetuar em livro tamanho bocejo eleitoral, o título será: “O melhor do caciquismo dos anos 80, revisitado em 2012!”

E o PSD? O PSD local, qual avestruz, prefere pôr a cabeça na areia e viver no sonho de que tudo está bem perdendo uma oportunidade de ouro para se abrir à sociedade. Muita da culpa recai sobre os ombros dos militantes, que preferiram virar a cara e validar o que aconteceu. Para os lados do número 14 do Rossio mudança é uma palavra vã, apenas serve para enfeitar discursos. É um sinal negativo quando a maioria dos militantes do partido são funcionários da CMV ou seus familiares como bem o demonstram os resultados e as caras visíveis na laudação do Montebelo.
Como foi a campanha? Esta campanha foi um “flop”, um “não” acontecimento. Vejamos, foi enunciada uma abertura à sociedade e proposto um debate de ideias mas o que se verificou foi o oposto. Os cidadãos mais atentos facilmente perceberam as debilidades no discurso argumentativo dos candidatos e alguma vacuidade nas ideias apresentadas salvo um ou outro projecto. Os órgãos de comunicação social são poucos, não perguntam, não investigam e não cumprem a sua obrigação.
O que ganhou Viseu? Nada. Rigorosamente nada! A visão sobre a sociedade viseense, essa se existe, não avançou um milímetro. Não foram apresentadas ideias novas, não há vontade ou capacidade de reformar o que quer que seja… Nem abertura… Nem debate… Nem uma ideia… Nada… Zero…
E Guilherme Almeida não venceu? Guilherme Almeida venceu, sim. Mas também perdeu! Guilherme Almeida não deixa de ser o líder, que fez escola nas associações estudantis, nas jotas, sem existência própria fora da vida política. Tenta resistir com todas as suas forças à mudança pois é mais um sobrevivente que um lutador, teimando em citar Sá Carneiro, provavelmente sem nunca ter lido ou entendido o que é proposto pelo pai fundador do PSD. Venceu sim, porque teve mais votos e o valor do voto deve ser respeitado, mas também perdeu, porque se apresentou às eleições anunciando mudança, debate de ideias e abertura do partido, mas o que fez foi o seu oposto. Não mudou um milímetro mesmo alterando um ou outro nome e acabou por fechar o partido a olhares externos. Basta ler os comunicados que foram emitidos ao longo do percurso, para ver que entre o que escreveu e o que levou a cabo muito se perdeu na espuma dos dias. Isolado dentro da teia que ele próprio teceu, não percebe que há vida fora da política e se o percebe sabe que não tem as competências necessárias para sobreviver lá fora, apesar do diploma do ISCTE! Os seus métodos políticos estão ultrapassados, a sociedade mudou e tem dificuldade em conviver com este estado de coisas. A saída de Ruas está prestes a tornar a sua vida até aqui fácil numa vida dura… muito dura e pior ficará se Carlos Marta puser o dedo no ar!
Como fica José Moreira? A curta diferença entre votos confere a José Moreira alguma legitimidade interna. Se souber aproveitar a vaga de fundo que criou, ainda terá uma palavra a dizer na escolha de um candidato à CMV. Moreira será sempre o rosto da oposição, o rosto que nos diz que há alternativa bastando para tal que que a mantenha credível, competente e honesta.
Alguma leitura do caso Cesário? Sentindo-se quase morto no deserto, com o lugar de Fernando Ruas ali tão perto, e sem qualquer tipo de respeito pelo cargo que ocupa, José Cesário tentou, de modo atabalhoado quase amador, dar prova de vida e marcar posição. O problema é que o fez da forma errada, na hora errada, servindo-se de uma linguagem errada. Terá de se justificar perante o seu ministro, pelas atitudes que tomou no exercício de funções porque “ponta de lança” que se preze como me classificou “o Presidente do Concelho de Canas de Senhorim”, mesmo que não marque golo no mínimo remata direito à baliza e foi o que procurei fazer enviando uma missiva ao MNE. Sendo Paulo Portas, um homem com sentido de Estado, em breve Cesário estará a balbuciar justificações e finalmente a aprender o que é exercer uma função de Estado. A credibilização das instituições é da responsabilidade dos políticos que ocupam os cargos. O ruído de Cesário apenas descredibiliza a sua acção como Secretário de Estado.
Há vida no PS? O PS tem tudo para ter vida, terá apenas de saber explorar o actual contexto. Deverá capitalizar o exemplo negativo do PSD, de modo a aproveitar a janela de oportunidade aberta com a saída de Ruas. Se olharem para as eleições do PSD, têm um manual de más práticas pelo que bastará apenas não repetir os mesmos erros. Os candidatos devem comunicar para dentro e fora do partido, procurar ser o mais transparentes possível, realizar um debate aberto e não estar com meias medidas para com quem desrespeitou o voto do eleitorado. De outra forma, este PS que, de derrota em derrota, já nem se esforça por ser alternativa válida irá encontrar sérias dificuldades para apresentar um candidato vencedor.
O CDS será um outsider válido? O Partido Popular, o PP de Paulo Portas, tem tudo para ser a flor que nasce no meio do estrume. Para tal terá de definir com clareza o seu caminho, anunciar se se coligará e com quem e coligados com este PSD não serão diferentes. A melhor solução passa por apresentar candidato próprio e a escolha deveria recair sobre uma personalidade forte, descomplexada, sem amarras ao poder instalado no Rossio e Hélder Amaral reúne todos esses predicados.
Ruas no olho da rua, e agora? Ruas, o “Mayor” eucalipto do jardim, secou o partido bem como a oposição e a derrota de Moreira é uma derrota acima de tudo também sua. A sua saída irá causar sérios danos no PSD, que sobreviveu e cresceu nas ruas de Ruas. A social-democracia local em breve será órfã de pai e mãe. Os próximos meses vão ser duros, a sucessão de Ruas será um quebra-cabeças.
Há outro caminho, para a política local? Claro que há. Mas este caminho implica honestidade, esforço, vontade, dedicação, espírito de missão e trabalho. Quem melhor combinar estes factores poderá ser o dono da cadeira mais apetecida da Praça da República!


PS: Neste artigo de opinião contei com a ajuda de análise do Miguel Fernandes porque duas cabeças pensam melhor que uma e a dele é felizmente bem mais desempoeirada que a minha!