30/03/2012

Ver com olhos de ver!

Texto de opinião publicado na edição 524 de 30Mar do Jornal do Centro

“O essencial é invisível aos olhos”, disse um dia Antoine Saint-Exupéry e, tal como capturamos um momento com uma fotografia, basta olhar para apenas ver imagens de um instante. Ver com olhos de ver é bem diferente e implica maior actividade no córtex cerebral. Olhamos tanto e apenas vemos o que nos interessa ou, melhor dizendo, aquilo que a nossa curta capacidade consegue discernir. Olhar com olhos de ver é mais que isso, é alcançar mais longe, é ser capaz de distinguir as formas e as sombras do que é importante e saber contextualizar tendo em conta o momento. Infelizmente, por ser mais fácil, quase sempre se vê o mesmo, sem querer ver mais, muito mais. Somos assim. Todos ou quase todos.



Vem isto a propósito de me aperceber com alguma preocupação que já vejo mal ao perto. E a maleita que não é de agora de ano para ano se vem agravando. O meu objectivo inicial passava por ver o Museu do Quartzo aberto e a funcionar, como um prometido centro de ciência viva tal como também teria prazer e um certo orgulho beirão em ver a reabertura do Museu Almeida Moreira, mas só vejo os dias a passar no calendário. Era para ver o PDM há mais de uma década em revisão, uma renovada Feira de São Mateus, uma prometida Agrobeira como feira regional da agricultura, a construção do sempre adiado e esquecido Arquivo Distrital, o final da “novela do Matadouro de Viseu que vem do tempo do Governo de António Guterres” e nem consegui ver como terminou o último episódio da outra novela da TVI que promoveu o burgo a nível nacional pela módica quantia de 45 mil euros! E também nem de binóculos certamente conseguirei ver o Parque Industrial de Lordosa como a primeira "tecnopolis" do distrito de Viseu, as medidas do Orçamento Zero para revitalizar o Parque Industrial de Coimbrões ou o resultado da participação autárquica de quase 30% na GestinViseu para o Parque de Mundão, além de outras políticas de apoio à captação e fixação de empresas que possam ser no futuro geradoras de emprego no concelho. Tento ver no Programa de Acção - Recentrar o centro, medidas que conduzam à afirmação e consolidação de Viseu como a grande capital económica e cultural da região centro mas pouco mais se vê que o umbigo de quem já só sabe exaltar a obra do passado. Tento vislumbrar o ponto de situação do inquérito promovido às irregularidades detectadas em Novembro de 2010, salvo erro, no serviço de atendimento ao público, onde existia, também, a suspeita de um eventual desfalque financeiro na Autarquia ou o ponto de situação sobre a requalificação da zona envolvente da praia fluvial de Alcafache e tantas outras promessas da politica local e só registo uma imensa névoa no olhar! E nem mesmo com o Telescópio Espacial Hubble serei capaz de conseguir ler as prometidas actas da Lusitânia ADR ou até enxergar a Central de Biomassa que a Nutroton-Energias, empresa administrada por Marques Mendes anunciou estar concluída em 2012 no Parque Industrial de Coimbrões… tão cedo não verei a Auto Estrada Viseu - Coimbra, a Universidade Pública seja em que formato for cá pelo burgo ou a ligação ferroviária de alta velocidade! Ah, malvada miopia!

E um mal nunca vem só! Ao longe, bem longe, há mais de uma década que ainda vejo pior: a desaceleração do processo de convergência para a União Europeia, significando menor crescimento e maior desigualdade, o desequilíbrio nas contas públicas e a falta de transparência sobre a situação financeira do Estado, o elevado endividamento dos agentes económicos, que se reflecte na evolução galopante do déficit externo, a perda de competitividade, o fraco crescimento da produtividade da economia, que está relacionado com a ausência das reformas estruturais, com as deficiências graves na política económica que tanto conduziram à perda de soberania e resgate financeiro como criaram uma barreira tão grande que impedem a entrada de luz no campo óptico ensombrada ainda pela fraca qualidade dos líderes políticos que nos têm governado. Vultos é já só o que consigo ao longe identificar e alguns com aspecto e formas tenebrosas como o desemprego galopante que ataca jovens, famílias e empresas, a miséria social e o sofrimento humano de idosos abandonados, crianças carenciadas, portadores de deficiência sacrificados, ex-combatentes ignorados e de tantos e inúmeros novos pobres que já não vivem mas apenas sobrevivem, a corrupção, a injustiça social… e outros tantos monstros!

Queria ver desenvolvimento, vejo austeridade; queria olhar o progresso e deparo-me com a recessão; queria contemplar o feliz futuro e entra-me o triste passado pelo olhos a dentro!

O médico oftalmologista não tardou a confirmar-me este auto diagnóstico e a receita foi de umas lentes progressivas. Interessante termo este logo esquecido face ao número de dois salários mínimos do custo das lentes capazes de melhorar a miopia e anular o astigmatismo e só a opção do possível em detrimento do desejável fez baixar a conta de uns quantos euros ainda que com a garantia que passaria a ver tão bem ao perto como ao longe. Porém, dei comigo a pensar: E, como farão aqueles que nem um salário mínimo podem despender? Quando poderão esses ver a luz ao fundo do túnel? É bem certo, ponho os óculos novos mas o essencial, esse, contínua invisível aos olhos!