18/05/2012

A tentação de Hélder Amaral?

Artigo de opinião publicado na edição 531 de 18Mai 2012 do Jornal do Centro

Já por estas páginas visitámos o estado da arte social-democrata e socialista e, se bem se recordam, o quadro geral nem é grandioso, nem exemplar. Relativamente ao designado “Centrão”, deixámos a opinião – válida ou irrelevante, em breve se saberá - que, por um lado, o PSD deve apostar numa figura que dê garantias de estabilidade, não arriscando muito na sua estratégia e, por outro lado, o PS terá de correr atrás do prejuízo apresentando um candidato que se afigure como o oposto do PSD e que disponha de uma frescura intrínseca.
O leitor, liberto das amarras da partidarite, questionar-se-á sobre o CDS-PP. Neste momento impõe-se uma reflexão sobre o conservadorismo local. Para entender a direita local, temos de recuar no tempo até ao período 1986 – 1989, aos anos dourados do CDS-Viseu, quando a autarquia foi comandada pela mão do Eng.º Engrácia Carrilho, com a visão estratégica de longo prazo que tanto nos tem faltado. O então desconhecido Fernando Ruas bateu Carrilho nas urnas de uma forma inesperada e herdou uma cidade com futuro. Quando, em 1992, a tragédia se abateu sobre a família com o falecimento de Manuel Engrácia Carrilho, o CDS entrou em regressão. Afastada, desde então e até hoje, do poder, a democracia cristã viseense foi-se definhando de acto eleitoral em acto eleitoral.


Só em 2009 é que conseguiu mostrar frescura com a candidatura autárquica de Francisco Mendes da Silva que deixou à cidade um bom catálogo de ideias e indubitavelmente foi o mais arrojado dos candidatos na referida contenda. Primou pela diferença, apresentou uma visão renovada, atenta e fresca sobre a sociedade e política local. Já para consumo interno do partido, Francisco provou que um jovem pode saber que E. Burke não é uma marca de ferramentas de marcenaria; provou que ser conservador, no interior, não é sinónimo de 3ª idade e uso compulsivo de suspensórios; também provou que a cultura não é pasto apenas para intelectuais de esquerda. Os eleitores, a quem a razão sempre atende, enamorados pelas virtudes do “Ruísmo” não quiseram ou não souberam entender o que era proposto pela candidatura Popular. No entanto, mesmo o eleitor mais faccioso não pôde deixar de passar ao lado de algumas propostas avançadas por Francisco Mendes da Silva, tais como a que visavam a Feira de São Mateus, o célebre contrato social ou o roteiro para a competitividade. Após estas autárquicas, entrámos directamente na ditosa crise que nos leva às legislativas do “pé no dito” a Sócrates. Chegados aqui, o eleitorado local CDS desviou o voto para que o chuto fosse grande e foi… o Eng.º Sócrates aterrou na Sorbonne, para estudar “Sciences Po”. Neste momento, voltamos ao fado do CDS, as fileiras azuis desguarneceram-se e a dinâmica eleitoral perde-se!
A figura central deste pequeno partido que quase se assemelha a uma família, tem sido Hélder Amaral. Qual patriarca, tem mantido a máquina partidária familiar a trabalhar. Hélder, reconhecido pela sua coerência e capacidade de trabalho em nome de Viseu, tem assumido cada vez maior protagonismo a nível nacional, tendo porventura imprudentemente descurado as questões locais. Com a detonação da “bomba nuclear” que foi a demissão precipitada, eventualmente despropositada, mas seguramente fora de tempo de Rui Santos, o Partido enche-se de vazio. Os eleitores Viseenses voltam a sofrer mais uma traição ao seu voto. Mas será esta traição comparável com a dos Socialistas? Rui Santos afirma abandonar de vez a vida política, ao contrário dos socialistas que apenas trocaram Viseu por “um pote de mel”. No entanto, em política não basta ser e o CDS terá de fazer as pazes entre os “irmãos” desavindos, assim como com o eleitorado. Em artigos anteriores, referimos que este CDS-PP podia ser a flor que nasce no meio do estrume! No entanto, os últimos desenvolvimentos provam que no jardim do CDS a falta de sol não permite que as flores se desenvolvam. Esta falta de sol derivará do facto do CDS não ter peso na sociedade civil. Essa entidade vaga que é o Viseense comum não consegue identificar quatro rostos do CDS local. Ao contrário do PS e do PSD, à excepção de Hélder Amaral, nenhuma outra voz conservadora debate a cidade. Neste momento resta ao CDS escutar e compreender a sociedade civil e avançar a todo o gás. Há que, de modo célere, de novo plantar, regar e tratar do partido para que rapidamente a sua beleza se faça sentir dando cor à política local e servir de contraponto ao poder como oposição que agora fica mais vazia. Entretanto, da Praça do Município, Ruas agradece que na fase final, onde o rabo é sempre mais difícil de esfolar, ninguém lhe chegue fogo…
Oscar Wilde afirmava que era capaz de resistir a tudo excepto à tentação. E agora CDS? Vão resistir à tentação de um pequeno papel numa qualquer coligação? Vão reorganizar-se, vão fazer das fraquezas forças indo ao encontro da sociedade civil para ai recrutarem novas ideias e novas gentes que ajudem a pensar diferente a cidade? Vão celebrar um alargado “contrato social” com os Viseenses ou decalcar a “partidarite do caciquismo” do “Centrão”? Vão pensar no longo prazo ou dar-se por satisfeito com o presente próximo que apenas serve para contabilidade imediata?
Nota final:
Só foi possível o olhar crítico sobre os três principais partidos desta cidade graças à visão analítica e esclarecida do Miguel Fernandes, parceria que não se dispensa pelo que para o próximo artigo reservamo-nos ao direito de fazer um breve resumo do quadro actual, perorar sobre uma possível candidatura independente ou coligação e até investir sobre a esquerda local. Será um artigo de coleccionador. Não se esqueçam que este fim-de-semana, organizado pelo Museu do Caramulo, se realiza o “Espírito do Caramulo”. Nós, tal como largas centenas de Viseenses, andaremos por lá, pode ser que o vento das serranias de Tondela nos apresente alguma surpresa… ou quem sabe, refresque a careca do Hélder Amaral!