10/07/2012

Ano novo, velha Feira?

Texto de opinião publicado na edição 538 de 06Jul2012 do Jornal do Centro

Invariavelmente todos os anos por esta altura a cidade começa a denotar alguma ansiedade pela abertura das portas da Feira de São Mateus. Como já havia referido nas páginas deste jornal (edição 501), após largos anos de estagnação, perda de relevância e banalização cultural confundindo tradição com recusa da modernidade, a “Feira Franca” chegou ao século XXI como um repositório de tudo o que representa, pela negativa, a cultura popular. O certame vivia em estado comatoso e já sob a direcção de José Moreira alguma mudança foi introduzida. O que falta então, na minha modesta opinião, para termos uma Feira de referência a nível nacional? 

Desde logo, necessita de ir ao encontro de novos públicos. Para tal deve apostar no reforço da qualidade dos expositores, deve procurar ser um espaço temático através da criação de semanas ou dias subordinados a um tema como o vinho do Dão, a gastronomia regional, a cultura, tecnologia, desporto, etc… Em termos culturais terá de procurar responder, de modo transversal, às necessidades básicas das diversas gerações e tendências que compõem o corpo dos visitantes. Dentro desta realidade é imperioso que procure transformar em sinónimos cultura e feira. Neste âmbito a aposta deve ser na diversificação dos espectáculos musicais (do popular, passando pelo rock, até ao fado ou música dita erudita já que há espaço e tempo para tudo). A vertente teatro deve ser explorada através de parcerias com o Teatro Viriato, companhia Paulo Ribeiro, com os produtivos “vizinhos” da ACERT entre outros agentes culturais ou associativos e a total ausência de dança ou bailado deve ser rapidamente resolvida. Devido à reduzida oferta, a literatura poderá desempenhar um papel importante no espaço da feira, havendo espaço para o desenvolvimento de ciclos de conferências com escritores, editores e livreiros nacionais e porque não um festival de cinema e fotografia, em parceria com outras salas da região? Deverá ser reforçada a aposta na moda, sendo necessário que estilistas, lojistas e agências, nacionais e locais, tragam o glamour que falta a este espaço. A Feira deve e pode ser ainda um espaço para debater temas estruturantes para a região envolvendo Instituições Públicas, Ensino Superior, Comércio, Empresários, Agricultores e naturalmente os cidadãos anónimos que se sintam entusiasmados a participar com o seu contributo de opinião no debate. O espaço ocupado pelo evento tem que ser reorganizado para que seja amplo, aberto, desimpedido, funcional e capaz de fazer da Feira um local de passeio e de encontro. E a Feira tem que ganhar em visibilidade e mediatizar-se arrastando para dentro dela comunicação social, políticos, figuras ilustres do panorama social, literário, artístico, cultural e económico para que junto da sociedade sejam eco da sua dimensão e interesse. Ora, para cumprir estes objectivos a Feira tem de sair do seu espaço físico e espalhar-se pela cidade: IPJ, Cinemas, Teatro Viriato, Conservatório, Fontelo, jardins, ruas da cidade e freguesias rurais. Também será necessário desenvolver protocolos de cooperação, patrocínios e mecenato com a iniciativa privada, bem como parcerias com o associativismo e agentes culturais regionais e ir ao encontro de fundações como Serralves, Gulbenkian, etc. A Feira, cada vez mais, tem de ser um espaço de encontro de culturas, o reflexo da cultura local e uma porta de entrada de novas tendências. Para concretizar tais intentos, resta que José Moreira disponha do total apoio tanto da autarquia como da AIRV, de modo que a feira seja um espelho do melhor que esta região tem e se possa destacar a nível nacional, pela positiva, comparativamente com outros certames como a Ovibeja, Fatacil, Expofacic, etc.
A partir de 10 de Agosto lá estaremos para ver!