23/07/2012

O humor é...

Texto de opinião publicado na edição 540 de 20 de Julho de 2012 do Jornal do Centro

O humor é, sem margem para dúvidas, e cada vez mais na deprimida “pólis” onde escolhemos viver, uma das chaves para a compreensão da cultura local. O humor é uma das formas mais nobres de criação artística e basta ler Oscar Wilde ou Evelyn Waugh para o confirmarmos. Um grande humorista, para o ser, terá de possuir um relacionamento franco com a vida pois o humor deriva da nossa consciência pessoal, do saber rir das nossas imperfeições, sendo indissociável das nossas tragédias e dramas, tanto colectivos como pessoais. Em cada época da história social e humana o pensamento cria e derruba paradigmas e o humor soube evoluir de acordo com espirito de cada época. Contudo, e apesar de o humor ser largamente teorizado e discutido, ainda há quem não o entenda como forma de arte ou de pensamento e pior ainda, quem falhe na sua compreensão. Existem subtilezas entre apenas ser cómico, ser irónico ou satírico! Para Sócrates a ironia é uma espécie de "docta ignorantia". S. Tomás de Aquino vê na ironia uma forma de obtenção de benevolência alheia pelo fingimento de falta de méritos próprios. Com Kant a ironia passa a ser considerada alguma coisa aparente que, como tal, se impõe ao homem vulgar ou distraído. Já a sátira, como mostra Gil Vicente, é mais corrosiva e implacável, serve para mostrar indignação, para punir abusos, denunciar preconceitos, injustiças, etc… A capacidade de influência do humor, grosso modo, é determinada pela personalidade do ouvinte ou receptador da mensagem e distingue-se das restantes formas de comunicação pela possibilidade de independência em relação qualquer dialéctica e também pela possibilidade de ausência de qualquer função social ou mesmo sentido. Ou seja, se “há tantos humores como humoristas” então na cidade o humor devia ser parte do conceito de cidadania, não concordam? Se o humor é tão importante não devia ser parte também dos critérios de definição da qualidade de vida dos cidadãos? Não se mede a felicidade de Nações? Porque não medir o humor das mesmas Nações? Mas longínquos vão os anos de S.Tomás e hoje somos parte de uma Europa cinzenta, de contribuintes exauridos de um País sem piada e com cidadãos adormecidos de uma Cidade onde ainda dá gosto viver, mas que deixou de saber rir de si própria.


Formatados por décadas de poder laranja, onde apesar de tudo foram crescendo muitas anedotas, a Cidade fica de mau humor quando se questiona, critica, interroga, pergunta porquê ou se lança uma piada de bolso.

Em Itália Beppe Grilo atirou-se à “casta” dos políticos, às multinacionais, à comida de lixo, contra tudo e contra todos e com um humor tal que nas últimas autárquicas de Maio obteve 15% dos votos do eleitorado. Robert Castiglion é o novo presidente da Câmara de Sarego graças a uma campanha bem-humorada que custou 600€ apenas. Os partidários de Grillo são jovens, têm emprego, são casados, têm filhos, estão cansados dos políticos corruptos e querem a renovação e a limpeza da política italiana. Nos EUA Obama, no jantar de correspondentes da Casa Branca, ri-se de si próprio, das suas políticas e dos adversários…

Então, porque não desejar que a cidade de Viriato seja local de reconhecida qualidade de vida, mas também a urbe onde os habitantes trocam sorridentes bons dias pela manhã, pela tarde e à noite se juntam para beber um copo, partilhar uma risada e discutir seriamente o futuro comum? Porque não dar a conhecer Viseu como o concelho onde todos têm espaço de expressão das suas expectativas, dos seus problemas, das suas ideias e tudo isso num clima bem-humorado que só a confiança no futuro permite? Porque não fazer da cidade um imenso “Jardim Efémero” onde com espirito se discute que Viseu queremos para filhos e netos? Leon Eliachar dizia que o humor é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros… que bom seria que quem governa permitisse que tal aconteça!

Mas a realidade é outra. Permitam que a finalizar deixe um exemplo ilustrativo do atrás referido. Se porventura num dado fórum politico da cidade me passasse pela cabeça anunciar que em Viseu só cresceram nestes últimos anos duas coisas, o “banco de terras” e as empresas do Dr Almeida Henriques arriscava-me certamente a que me propusessem na Assembleia Municipal como “persona non grata”, mas já se pelo contrário afirmasse que valia mais apostarem no Dr José Costa como candidato do que no previsível “dispensável remodelável” governante arrancaria uma valente gargalhada da plateia. Percebem agora o drama de uma cidade que não se sabe rir de si própria e porque é o humor uma das chaves para a compreensão da sua cultura?