04/08/2012

O activo tóxico de Fernando Ruas

Texto de opinião publicado na edição 542 de 03 Agosto 2012 do Jornal do Centro

“- Está? Estás bom? Olha lá, tu que como diz o outro só sabes dizer mal na blogosfera já viste quem aperfilhou os Jardins Efémeros?
- Olá, não será difícil adiantar-te um nome mas não sei quem é o outro que diz que eu só digo mal e só pode ser algum solipsista de pouca importância para a cidade.
- (risos) Vê o email que te enviei. (…)”



De facto, não seria sequer necessário realizar o teste de DNA ao tema da conversa até porque o assunto deu à estampa nos nacionais na semana seguinte. Não era esta a primeira vez que a ADDLAP, cujo Presidente é o ilustre vereador da CMV e líder da concelhia do PSD Guilherme Almeida, se via retratada na comunicação social por razões polémicas, de pouca transparência, bem como por supostas ilegalidades na sua gestão. Em Setembro de 2011 a TSF dava conta de “decisões em causa própria” na execução dos fundos comunitários, num registo muito “dejá vu" da estranha novela dos 25 milhões de euros da Lusitânia ADR, cujo episódio final tarde ou nunca chegará ao conhecimento dos viseenses. Na ocasião a Associação de Desenvolvimento veio a público rejeitar as acusações de possíveis irregularidades na aprovação de candidaturas do PRODER, mas dias depois Amadeu Araújo (jornalista da TSF) dava nota e acrescentava outros desenvolvimentos neste caso de atribuição de dinheiros públicos no valor de 14 milhões de euros. Em Maio deste ano, a mesma ADDLAP, assinou 55 contratos do SP3 PRODER – Abordagem LEADER, num investimento elegível de 6.9 milhões de euros – o que não deixa de ser uma boa noticia, no entanto na data não mereceu sequer qualquer destaque no site oficial uma vez que nessa altura foi temporariamente suspenso. Na cidade não se escondia o rumor que a ADDLAP iria lançar uma nova página adjudicada por ajuste directo, pelo valor mais elevado, à empresa que teria executado o site da candidatura de Guilherme Almeida à Concelhia do PSD e, como não há fumo sem fogo, uma vez mais a polémica saltou para as páginas da imprensa nacional. Algum tempo depois a nova página oficial do organismo entretanto adjudicada a outra empresa ainda não conseguia espelhar toda a qualidade de gestão e eficiência de Guilherme Almeida à frente da ADDLAP pois nem dava resposta a estas suspeitas nem tão pouco tornava públicos, como a legislação em vigor obriga, os relatórios de gestão e contas! Os cidadãos, mais do que o direito, têm o dever de exigir dos políticos uma gestão rigorosa e transparente dos dinheiros públicos. O Estado, ao contrário das empresas privadas, tem uma obrigação maior de prestar contas aos interessados. Sobre este tema da oposição, Socialista e Democrata Cristã, não se ouviu uma palavra. De que esperam para exigir a divulgação pública e transparente da forma como a ADDLAP gere os dinheiros públicos?

É neste ambiente turvo que chegamos então aos Jardins Efémeros, momento cultural de qualidade indubitável que por breves dias devolveu vida ao centro histórico. Para estes Jardins a ADDLAP, através de um ajuste directo com o valor de 36.331,60€, contratou com a empresa promotora a realização do evento, sendo que para a mesma finalidade celebra com a CMV um protocolo proposto pelo Presidente da ADDLAP Guilherme e votado pelo Vereador Almeida: “considerando que, no momento, por indisponibilidade financeira não pode a ADDLAP iniciar tal execução pelo que o Município de Viseu num quadro de cooperação, colaboração com esta entidade assumirá os encargos que decorrem da execução deste Subprograma”. Lúcia Araújo Silva (PS Viseu) e José Carreira (CDS Viseu) importam-se de nos explicar isto? Já agora averiguem e procurem esclarecer o Viseense pagador de impostos, em nome da boa gestão do erário público, porque é que fazendo o cinema ao ar livre parte da programação atribuiu a CMV em paralelo um subsídio ao CCV (que tem tido brilhante actividade) para o mesmo efeito? Perguntem ainda a Fernando Ruas o que pensa ele de todo este enredo e que medidas irá tomar no sentido do seu cabal esclarecimento! Será que vai exigir a Guilherme Almeida, como a coerência impõe, que se justifique factualmente e afaste de vez a auréola de suspeição que carrega consigo? Irá Ruas retirar-lhe a sua confiança política, caso o vereador e Presidente da Associação não seja capaz de se justificar de forma inequívoca? Caso não se queiram dar a tal maçada e desinteressante tarefa não se preocupem porque para não fugir à norma instalada, o mais provável, como se calcula, é que Fernando Ruas prefira transformar o seu delfim no Miguel Relvas das Beiras… efémeros são os Jardins e os dias de mandato que lhe restam, mas os “não assuntos” de Guilherme Almeida, dada a sua "não existência" fora da vida política, pelos vistos com esta oposição, continuarão a ser persistentes.