21/09/2012

Conselho ao Concelho!

Texto de opinião publicado na Edição 549 de 20 Set 2012 do Jornal do Centro

Há por cá certos “Manueis Silva”, donos de todos os conselhos e defensores dos donos de concelhos mas, em abono da verdade, devemos reconhecer que há conselhos e concelhos. Apostemos então num concelho, com c, e vamos supor que poder e oposição se sentam à mesma mesa para discutirem as grandes linhas orientadoras da política local, as prioridades possíveis dentro do orçamento disponível, a resposta necessária a situações de emergência, a melhoria e reforço das capacidades instaladas, a antecipação proactiva a novas e difíceis ameaças socio-económicas ou simplesmente para beber um copo e trocar dois dedos de conversa a propósito da situação do País. Nesta altura o leitor já estará a pensar que o cenário apresentado não tem como pano de fundo Viseu. Na capital das beiras, o poder instalado deformou-se e como Weber o definia, tornou-se prepotente impondo a própria vontade numa relação social, mesmo contra a relutância dos outros e a oposição hiberna durante quatro anos para emergir nas eleições num acto de puro suicídio politico. Poder e oposição ignoram-se, esquecem os anseios e expectativas dos eleitos. Se acaso existir a necessidade administrativa de se encontrarem, a ocasião serve apenas para libertar o fel de ódios mesquinhos e de estimação cultivados ao longo de muitos mandatos caracterizados pelo marasmo de ideiais e de ausência de visão comum de um futuro partilhado.
 
Um líder forte não teme o escrutínio, a crítica ou a visão diferente de um mesmo objectivo e reconhece a sua força pautando por ter também uma oposição forte. Pelo contrário, uma oposição fraca, domada e subserviente, evita confrontar o poder com políticas alternativas, prefere a acomodação e ao invés de ser um elemento de equilíbrio e escrutínio passa a ser o pior perigo que uma sociedade democrática pode enfrentar. Uma oposição como a que temos em Viseu, despida de ideias, descapitalizada e sem futuro, carregada de muitos indivíduos vazios, sem curriculum, sem capacidade, sem chama e sem história, oferece-se livremente ao poder, na esperança de que este depois se encarregue da sua eterna sobrevivência. Montesquieu, afirmava que sem um princípio de contenção e equilíbrio de poder, que ficou mundialmente conhecido como o princípio de separação de poderes, o mundo está constantemente em risco e assim, poder e oposição não devem anular-se em lógicas meramente partidárias onde na génese estão sempre ou quase sempre os interesses pessoais acima do interesse colectivo.
A coaptação dos opositores é a arma dos fracos porque ao invés, os fortes impõem-se através da razão, aceitando outros pontos de vista e outras formas de olhar a politica e até assumir que os adversários podem ter ideias válidas. Uma polis forte precisa da mesma maneira de uma sociedade civil forte que contribua com as suas mais variadas propostas para o engrandecimento dessa mesma sociedade. Não é de grupelhos de indivíduos, desesperados por um “tacho” e sobreviventes da política, perenemente e permanentemente à caça de uma migalha deixada cair debaixo da mesa do poder, que se constroem sociedades sustentáveis, dinâmicas e prósperas.
Pois, fiquem sabendo, que naquele concelho, a oposição é construtiva, contribui com ideias, alternativas e sabe fazer ouvir a voz daqueles que os elegeram. O poder por sua vez acolhe as propostas credíveis e sustentadas em critérios de rigor e factualidade comprovada rejeitando as que pelo contrário contrariam a ideologia da maioria eleita mas sempre com argumentos de valor. Muitos ideais os afastam mas no essencial, conscientemente e de forma responsável, assumem que mais importante que as divergências de conceito, de opinião, de interesse partidário há um valor fulcral que os une: o concelho e as suas gentes! Sem subserviência, sem demagogia, sem hipocrisia politica, poder e oposição unem diariamente esforços e colocam o melhor das suas competências ao serviço daqueles que os legitimaram.
Isto é impossível, dirá o leitor que, uma vez mais queira transportar esta realidade para Viseu. Sim, é! E será no futuro se as escolhas que se adivinham para 2013 emanarem do caciquismo instalado nos principais partidos. Mas as instituições são também as pessoas, caro leitor e cabe a cada um de nós ser exigente no voto e na participação cívica que obrigue a que essas escolhas possam recair sobre aqueles que mais que preocupados com os interesses pessoais mostrem ser capazes de servir o interesse comum. Este concelho existe sim, é uma realidade próxima que podemos plasmar em Viseu e na hora das escolhas seria bom que se lembrem disto, é o conselho que vos deixo!