31/10/2012

Estamos entregues à bicharada!

Texto de opinião publicado na edição 555 de 31 de Outubro de 2012 do Jornal do Centro

O papel da oposição, numa democracia consolidada, está hoje distante da definição simplista de que "o dever de uma oposição é nada propor, opor-se a tudo e de braços cruzados esperar a queda do governo. Por oposição, a dita oposição, tem que ser a voz dos sem voz, apresentar alternativas à vontade do poder, oposição por escrutínio e mais ainda uma crítica-parceiro-de-caminho na construção da urbe. Já em tempos revisitei este assunto, neste Jornal, e volto de novo ao tema porque os últimos episódios da política local têm sido pródigos na equação de abuso e usurpação do poder por parte de quem governa e ausência de escrutínio e crítica por dever de quem deve ser oposição. Vamos então a recentes e breves factos para que não restem dúvidas sobre as afirmações atrás expressas: 
No início deste mês o PCP Viseu, organização que desconhecia ainda existir, veio denunciar a situação de 16 colaboradoras da empresa Fulgurauto, adjudicatária da limpeza de alguns espaços públicos da Câmara Municipal de Viseu, que estariam desde Abril deste ano, sem receber salários. Se bem me recordo, uma semana antes o bom samaritano do Presidente da CMV tinha vindo a palco afirmar que acompanhava esse assunto e que decidiu reter os pagamentos feitos à empresa depois de ter descoberto (meio ano depois) que as funcionárias tinham salários em atraso. A resposta à denúncia feita pelo PCP da queixa da CMV no Tribunal de Trabalho sobre o pedido de penhora dos créditos da empresa foi feita na comunicação social, não pela Edilidade mas sim por Guilherme Almeida, na qualidade de Presidente da Concelhia PSD Viseu, que tomou a função de Presidente da Autarquia da qual é mero vereador do desporto e, apesar de estar careca (literal e figurativamente) de saber que Guilherme Almeida precisa da CMV como do pão para a boca não posso deixar de perguntar se isto é mera confusão momentânea ou usurpação de funções? A mesma pergunta deveria ter feito a oposição! O CDS não tem voz nesta altura, mas o PS pela voz de Lúcia Silva, não só não o fez como ainda veio a palco com a defesa patética da posição de não acordo com a reforma administrativa proposta e votada na Assembleia Municipal permitindo que o inarrável Guilherme lhe respondesse na mesma letra confrontando-a com a posição favorável que terá tomado em sede de votação na Junta de Freguesia de que faz parte. Da parte do poder, a prepotência e a promiscuidade de funções fica por demais provada e caberá em próximo acto eleitoral punir convenientemente este despudor do camarada Guilherme. Da parte da oposição PS fica igualmente provada uma vez mais a incompetência e inabilidade política de Lúcia Silva e da sua concelhia pelo que não se compreende porque espera para se demitir do cargo que não serve a ela nem ao eleitorado que a elegeu.

O outro exemplo prende-se com a notícia lançada na última edição deste Jornal do concurso para o SMAS “feito à medida” e trabalhado na Autarquia de modo a afastar a concorrente vencedora colocando no seu lugar a filha do Vice-presidente Américo Nunes. Esta situação a ser tal qual veio a público configura um grave abuso de poder e merecia da parte da oposição um veemente protesto e o desenvolvimento de todas as acções políticas que dessem cabal resposta às dúvidas lançadas e ao esclarecimento total com a reposição da legalidade do concurso para o cargo em causa. Uma semana depois, sinto-me quase capaz de apostar que nada nem ninguém se atravessou ao caminho solicitando à CMV o mais pequeno esclarecimento.

No País é o que se vê e por cá o que se vê e o que se não vê! Bem dizia o Pe. António Vieira, no "Sermão ao Bom Ladrão" (1655):
"Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós que roubais em uma armada, sois imperador?"