30/11/2012

Política do pilarete!

Artigo de opinião publicado na edição 559 de 30 Nov 2012 do Jornal do Centro

Na falta de melhor assunto tinha desenhado para esta crónica de opinião revisitar o tema da má despesa pública municipal, tão caro no passado aos nossos eleitos da Praça da República e tão caríssimo no presente e futuro a todos os contribuintes. Os exemplos são tantos que dariam para outro livro da Bárbara Rosa e do Rui Marques que, sempre esquecendo Viseu, vão de trocos a milhões bastando para o efeito o leitor passar os olhos pelo Portal Base e fazer uma pesquisa em Entidades com o NIF 506697320. Desde o inovador pilarete de 5.700€ para conforto de Fernando Ruas, aos 6000€ das imprescindíveis agendas para anotação das datas de inauguração das obras sucessivamente adiadas, aos quase 25 mil euros por um estudo do Museu Municipal, situado algures em local bem escondido da cidade, ou ao dobro gasto todos os anos na festarola da Quinta da Malafaia, ou cinco vezes mais esturricados anualmente na operação e manutenção do funicular, etc, etc para chegarmos à cereja no cimo do bolo, quase um milhão de euros consumidos na promessa eleitoral do Centro de Artes e Espectáculos entretanto transformado num parque de estacionamento.
 
Falar das razões porque é possível que tal aconteça ou tenha acontecido seria obrigar o leitor a reler do papel e do valor da oposição e isso é matéria mais que assimilada, na maioria das vezes inexistente e nas restantes ignorada.
Mas águas passadas não movem moinhos e os viseenses perguntam-se sobre qual será o figurino dos candidatos em 2013, cenários esses que outrora neste mesmo jornal procurei configurar, mas como a política é a arte do possível e as variáveis mudam com celeridade o que é valido agora não o será no Verão do próximo ano. Há porém, coisas que não mudam.
Fernando Ruas não muda, nem na forma nem no conteúdo, e os sinais que deixa na imprensa apontam para a vontade férrea de se perpetuar no poder. Como só voltará em 2017 a votos até lá não resistirá à tentação de na Primavera de 2013 anunciar como seu candidato e do Partido por sua vontade o seu leal vice Américo Nunes. Este aliás já dá sinais de ter começado a campanha marcando terreno com a batalha do lixo mais preocupado em afastar os resíduos de Tondela que em reciclar Viseu. Percebe-se esta escolha pois na batalha da água já o vice se afogou e não será por aí que se descolará da imagem de Ruísmo, onde esteve sempre na fotografia. Américo, qual Cavaco, tenta passar a ideia de que não é nem nunca foi politico, curiosa mensagem para quem há mais de 20 anos dela vive. A sociedade mudou, o país mudou, a cidade mudou, mas politicamente o vice Nunes é mais do mesmo e nada de novo, no horizonte da cidade. Resta esperar que a concelhia jogue as suas cartas, que a distrital sufrague ou avoque outras escolhas ou que por outros desígnios o nacional imponha para a capital de distrito o nome de algum remodelável Secretário de Estado, ainda que nenhum seja congregador das vontades locais. Muitas são as possibilidades e o PSD local tem, reconheça-se, muito boas referências, mas estou convicto de que a resposta à pergunta de qual dos candidatos dá mais garantia de não pedir uma auditoria externa ao reinado de Ruas condicionará as escolhas. Atenção que quanto mais alinhada e frágil for a aposta maior será a janela de oportunidade dos adversários e abrirá a porta ao aparecimento de candidaturas de cidadãos independentes, porventura até resultantes de rotura com os aparelhos partidários.
No PS ninguém sai limpo dos dias de indecisão. José Junqueiro é o candidato de José Seguro, estando, com habilidade, a adiar a decisão final. O deputado joga com a hipótese de eleições legislativas antecipadas, ao mesmo tempo que procura garantir que Lúcia Silva fica sobre brasas. O prolongar deste impasse por mera teimosia das partes, pode culminar com a demissão da líder da concelhia, sabendo o experiente deputado que a derrota se estenderá a Miguel Ginestal que tem certamente estado por detrás desta falhada estratégia da concelhia para garantir interesses pessoais nas próximas listas de deputados. Junqueiro sabe que a ser derrotado na corrida à cadeira de Ruas, situação provável neste adormecido laranjal viseense, nunca o será pelos números da vergonhosa prestação do agora assessor de Seguro. Junqueiro conhece a capacidade do eleitorado, sabe do seu valor como politico, está consciente da expressão da sua retórica contra um candidato menor e não deixará de jogar o tudo ou nada em 2013 pela conquista da Praça da República e, sejamos pragmáticos, pelo PS Viseu, goste-se ou não do estilo, dos nomes falados até agora, Junqueiro sendo mais do mesmo, será nesta altura aquele que reúne melhores predicados para ser o candidato. Cálix, o ex-assessor do outro José de má memória, com a sua prestação assegurou capacidade negocial e o seu nome não poderá deixar de constar na lista candidata rosa. É certo que os estatutos permitem outras vias obrigando João Azevedo a ter que vir a terreiro desempatar o processo e a que se clarifiquem posições, sendo que maior será o desafio se Junqueiro recusar o palco e só uma nova cara poderá fazer esquecer o semblante carregado dos eliminados. Nesta demorada gravidez onde ninguém parece querer ser o pai da criança existe o risco de amniorrexe prematura e a chegar ao fim será sempre um fórceps de alívio cujas dores vão ser sentidas ao longo da campanha.
Hélder Amaral, pelo CDS, será porventura o último a afinar a máquina eleitoral. Ainda a braços com as últimas eleições nas concelhias, Viseu incluída, o CDS sabe que deste PSD Viseu, não partirá o convite para o namoro de uma coligação autárquica e ainda que por razões estratégicas tal se configurasse as ofertas seriam sempre menores e inegociáveis de modo que a escolha de um candidato próprio será decisão mais acertada e mais ajustada à mesma janela de oportunidade reclamada pela oposição socialista, desde que vestido com ideias frescas, perfumado com uma visão de futuro e personificada em rosto limpo ainda que porventura de tez mais escura.
Em breve por certo as novidades deixarão de o ser e esta minha leitura que aqui vos traço a ficar decalcada na realidade deixa-me a sensação nítida que Viseu merecia mais. Em 2013 Viseu deveria poder decidir da escolha entre o autarca mais do mesmo, do betão, da rotunda, do emprego familiar, do interesse pessoal e o “homem novo” de Aquilino Ribeiro do anterior editorial, o autarca gestor, facilitador do investimento, da liderança de vontades, da noção do serviço público e da preocupação com o cidadão.
Mas, tenho para mim que a maior preocupação dos previsíveis candidatos vai ser em conquistar o voto dos eleitores que lhe coloque na mão o comando do pilarete de Fernando Ruas do que em dar a mão a todos os viseenses na construção dos pilares de um futuro melhor.