14/12/2012

Sá Carneiro, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.

Texto de opinião publicado na edição 561 de 14 Dezembro de 2012 do Jornal do Centro.

A política também vive de uma certa mitologia e, do mesmo modo que qualquer revolucionário sul-americano se arroga fiel depositário da tradição de Simón Bolívar, também qualquer social-democrata português, por mais formatado na linha das jotas que esteja, baterá sempre com a mão no peito garantindo devoção eterna a Sá Carneiro. Contudo, tal não significa que entenda o falecido fundador – e na maioria dos casos é mais que provável que não conheça sequer a sua obra -, e só o citam ou homenageiam porque faz parte do teatro em que se transformou a acção política. Agarrado ao passado, do mesmo modo que um exorcista se agarra à fé, é em grande parte deste “teatro” que vive a comunicação do deputado Pedro Alves. 
 
O leitor não se preocupe, se o nome não lhe fizer tocar um único sino de reconhecimento na cabeça, pois este é apenas mais um dos deputados tão relevantes para os desígnios do distrito que nunca ninguém deu nota de nenhuma intervenção digna de registo. O leitor, deste deputado, não pode esperar uma clara identificação ideológica e, ainda que se preste ao aborrecido trabalho de ler os textos produzidos por este ex-jota não encontrará neles o reflexo de uma identidade Social-Democrata, Socialista Liberal ou Conservadora Liberal a não ser o vazio de um cérebro que tanto regurgita um texto bem socialista de Sá Carneiro como uma tentativa de texto liberal ao estilo de Passos Coelho. Pedro Alves não é de esquerda ou de direita pois, para os que navegam no lodo do centrão do interesse, cacique, politiqueiro e jota, a ideologia é coisa do passado. Voltando à Sá Carneiro, o seguidor mais atento da realidade política nacional poderá afirmar que, ao contrário do PCP, o PSD evoluiu. O PPD de Sá Carneiro (que Guilherme Almeida da concelhia também gosta de citar), exceptuando o tom de laranja no fundo das bandeiras, nada tem a ver com o PSD de Passos Coelho, que elegeu inúmeros Alves como deputados. A social-democracia de Sá Carneiro tinha por base um pensamento ideologicamente estruturado, era herdeira da ala liberal de Marcelo Caetano, caracterizada por uma social-democracia moderada, inspirada no modelo sueco ou alemão, com ligações à igreja. Com Cavaco Silva, este PPD, começa a perder as suas raízes, a ceder ao pequeno interesse local e não resiste ao poder pelo poder onde já nada é ideologia. No PPD do super-citado Sá Carneiro não havia barões, aparelho ou caciques. Os “notáveis”, na sua maioria, eram pessoas independentes da política com forte sentido de participação cívica e o militante de base era um apaixonado pela política, pela social-democracia bem como pela sua comunidade. Sá Carneiro estava fortemente embrenhado em questões ideológicas e cargos, lugares ou protagonismo não faziam parte da sua auto-motivação. Ao inverso, a Pedro Alves, ninguém conhece qualquer obra política ou ideológica, exceptuando o facto deste se entreter no facebook, em hora de plenário, a tecer comentários sobre treinadores de equipas de futebol, para logo depois ser, copiosamente, insultado por adeptos que, aparentemente, denotam uma maior capacidade técnica/argumentativa para a produção literária/intelectual do que o infeliz deputado. Outro aspecto, que em Alves contrasta com Sá Carneiro, é o facto de este deputado não ter reconhecidos méritos profissionais. Se Sá Carneiro era um advogado de valor reconhecido, Alves sendo professor é mais conhecido como funcionário do partido, e mesmo o facto de ser especialista em agitar bandeiras e ser ex-jota, exceptuando no caso de Miguel Relvas, não deve ser tomado em linha de conta como experiência profissional. Sá Carneiro era um Homem de rupturas, não por meras questões pessoais ou jogos de interesses, mas por questões ideológicas e de convicção pessoal. Pedro Alves também é homem de rupturas, não por questões morais ou ideológicas pois não teve problemas em votar favoravelmente um orçamento que não aprova, mas por razão de garantir interesses pessoais. Fica um exemplo da capacidade de ruptura (com a própria palavra) deste deputado: quando o PSD se bateu contra o pagamento de portagens nas ex-SCUTS, Pedro, naturalmente, estava com o partido e com o povo; quando o partido, ao assumir o poder, votou o pagamento das mesmas portagens, Alves, como um boy bem-pau-mandado, votou favoravelmente. Mas, caro leitor, nem tenho qualquer processo de intenção pessoal e não pense que tudo é mau em Alves. Antes pelo contrário, no último ano e meio Pedro, regista no seu curriculum o mérito de contribuir para a Promoção e Valorização dos Bordados de Tibaldinho, trabalho fulcral em prol do distrito e espero que gerador no futuro de milhares de empregos na região, especialmente entre senhoras viúvas da faixa etária superior aos 65 anos.
Neste texto de opinião, caso o leitor tenha tempo disponível e paciência sobrante, se entender rasure o nome do deputado e escreva por cima o nome do vereador Guilherme Almeida alterando ao mesmo tempo as tarefas profissionais e verá que o texto não perde sentido. Definitivamente, vivemos numa era em que a mediocridade se transformou numa epidemia e tudo corrói. Esta geração, que procura assumir e controlar o poder no PSD, para se auto-legitimar, pretende assumir, como seu, o legado de Sá Carneiro, mas raramente ultrapassam a habitual evocação do seu nome em vão. Para um Social-Democrata, com profundo conhecimento da vida e obra de Sá Carneiro, nada mais resta, do que levantar as mãos aos céus e gritar: “Perdoa-lhes, Sá, eles não sabem o que fazem nem o que dizem!”.
Como sociedade não os podemos censurar porque mais não conseguem fazer do que procurar garantir que a vidinha continua. A vergonha essa, cabe-nos inteiramente a nós que os elegemos!