10/01/2013

2013, ano de factura obrigatória!

Texto de opinião publicado na edição 565 de 10 de Janeiro de 2013 do Jornal do Centro

Escrevo esta crónica em dia de encerrar a quadra natalícia, eu que ainda sou do tempo em que “um conto de reis” era garantia de “um Natal que todos merecíamos” e certeza que além das prendas “muitas famílias teriam na Consoada os pratos que se habituaram”. Outros tempos… hoje foram-se os subsídios e, tirando os que entretanto emigraram, são poucos os agregados familiares onde a “gula fiscal” não roubou os últimos “tostões” porque a esperança no futuro, essa, foi hipotecada pelos sucessivos governos da última década.
Neste cenário o número de 3476 euros gastos nas férias no Brasil pelo Secretário de Estado da Economia Almeida Henriques mostra que ainda há, felizmente, quem não tenha razões de queixa e que há mais vida para quem frequenta festas do Pontal. 
As circunstâncias particulares que vivemos e a noção de que, como dizia Agustina Bessa-Luís, só se lidera pelo exemplo sugeriam alguma contenção por parte dos nossos governantes pelo que bem pode de seguida, com a inabilidade e presunção politica que caracterizam o também Presidente da Assembleia Municipal de Viseu, vir de novo a público insistir mostrando a factura das despesas pagas do bolso dele porque no geral fica a certeza que só eu e ele acreditaremos em tal versão. E nem precisamos de recuar aos tempos da Lusitânia mas tão só à X Legislatura em que o então deputado Almeida Henriques, na Reunião Plenária de 29 de Novembro de 2006, se dirigia ao Ministro das Finanças de então dizendo-lhe:
“(...) - Sr. Presidente, Srs. Deputados e Srs. Membros do Governo, em matéria de impostos já ficou bem patente para todos os portugueses qual é a intenção do Governo. E essa intenção chama-se voracidade fiscal, chama-se cobrar mais para gastar mais! É claro e notório neste Orçamento que o Governo penaliza, mais uma vez, as famílias, as empresas e, mais grave ainda, penaliza a competitividade da economia portuguesa. Aliás, é o próprio Relatório de Outono do Banco de Portugal que vem reconhecer que este agravamento é insuportável para as famílias e para as empresas. Nesta voracidade fiscal, a que chamaria até «gula» fiscal - e a gula é uma coisa feia - não escapa ninguém!” para percebermos até onde vai a hipocrisia politica de Almeida Henriques. A memória das promessas da campanha das últimas legislativas que ditaram a vitória e ascensão política de Almeida Henriques, a par das crónicas e intervenções públicas, dariam para fazer corar de vergonha um qualquer Artur Batista da Silva, “coordenador" do PNUD da ONU. Basta lembrar da paixão esquecida do Arquivo Distrital ao banco de terras, da luta pela Universidade Pública ao fecho dos Tribunais, da fusão do Serviço de Finanças à Auto-Estrada Viseu – Coimbra. Na sua crónica de 1 de Fevereiro de 2010 dizia que "mantendo a coerência que sempre teve, só deve haver portagens para os residentes se existir via alternativa" mas, o seu Ministério acabou de anunciar há dias, neste início de ano, um aumento nas portagens das ex-Scut superior à inflação.
O social-democrata Almeida Henriques promete em Viseu, o seu assessor desmente em Lisboa. Com dificuldade em distinguir governar de governar-se, servir de servir-se espero que Almeida Henriques se recorde das datas referidas que cito factualmente não vá dar-se o caso de me acusar de demagogia ou, pior ainda, de maledicência. Agora os meus amigos maçons impolutos e idealistas, vão-me perdoar mas, a não ser que os desígnios da Maçonaria sejam outros depois do anúncio breve e quase certo de José Junqueiro como candidato do PS o PSD nacional irá também indicar Almeida Henriques como seu adversário. É sabido que na cidade também se aponta o nome de José Cesário como possível candidato (contra quem o amigo Carlos Marta nunca concorreria) e, sendo certo que a política pode ser divertida sem dever ser burlesca pelo que esta discussão vai fugir ao controlo do PSD local, deixando de fora Mota Faria e para desconsolo último de Fernando Ruas o seu candidato Américo Nunes. Ruas, cuja cadeira é a causa de toda esta luta, detentor da patente da Marca Viseu que já conheceu melhores dias e propaganda mais positiva (e as meninas à janela da reportagem da SIC dispensava-se bem), poderá ocupar por troca directa o lugar do dispensável da governação nacional considerado assim adequado gestor da polis local. Conhecidos os dotes empresariais de Almeida Henriques num futuro próximo a cidade ainda terá saudades de Fernando Ruas, mas em 2017 com esta solução de mais do mesmo, senão pior com Guilherme Almeida a vice, a troca de cadeiras poderá de novo ter lugar. Tal só não acontecerá a ser verdade tal cenário politico se, no momento em que se apresente nas urnas a sufrágio como candidato os viseenses lhe mostrem a factura das promessas politicas não cumpridas, da má gestão governamental e dos sacrifícios a que por isso serão obrigados durante mais uns anos.
Os nossos representantes esqueceram o fundamental da política, precisam de ser recordados que a actividade política deve ser entendida com o espirito de serviço público ao qual se doam alguns anos de vida e não como um centro de emprego, para os próprios e família, ou como um up-grade económico-social a que não se teria acesso de outro modo. Mas quem ao fim de tantos anos ainda não compreendeu esta regra elementar dificilmente a entenderá, quem paga somos nós e… sem direito a férias no Brasil.