21/02/2013

Uma questão de testosterona

Artigo de opinião publicado na edição 571 de 21 de Fevereiro do Jornal do Centro

Para seu desconforto pessoal e desgosto das suas tropas que tinham criado a expectativa de uma investida sobre a Praça da República, uma mensagem de algum “pretor laranja” terá sido suficiente para refrear o ímpeto guerreiro do “último Viriato”, o (in)disponível, José Costa. Acampado definitivamente no Campus Politécnico, terá agora tempo para tentar perceber porque razão Diodoro dizia sobre o verdadeiro herói que "Viriato considerava a auto-suficiência a sua maior riqueza, a liberdade, a sua pátria, e a superioridade que lhe advinha da coragem, a sua mais segura posse." O cenário de uma candidatura independente às autárquicas 2013 fica mais distante, com o passo à retaguarda de José Costa e com o improvável passo em frente de Carlos Marta desligado do partido. O debate sai empobrecido pois diminui o leque de intervenientes que poderiam trazer um novo conjunto de posições políticas, de novas ideias, de novas propostas de solução para os problemas que assolam as populações.

No figurino eleitoral que se vai murmurando pela cidade, a candidatura já afirmada ou cada nova opção que surge é pior que a antecede, o ridículo da opção Américo é substituído pela hilariante hipótese de Cesário. Nada de novo! Neste caso, a única mudança previsível, na Praça da República, seria a da afável secretária Olívia pelo especialista em redes sociais Lino das bicicletas. É certo que a solução non sense de Zé Cesário por suposto consenso laranja tem muitas vantagens e apenas um inconveniente, a saber, Paulo Portas aplaudirá por se libertar de um estorvo que a partidocracia eleitoral lhe impôs, a Diáspora rejubilará por se ver livre do distribuidor de bibliotecas da banha da cobra, o contribuinte aliviar-se-á de um despesista em milhas aéreas à conta do erário público e só Viseu, como sempre, perderá no negócio. Ao Zé, como gosta de ser chamado, contentar-se com o cargo de Presidente da Assembleia Municipal seria mal menor pois permitir-lhe-ia acumular as senhas de presença locais com as ajudas de custo de governante caixeiro-viajante e ainda deixar-lhe tempo livre para um curso de pintura de azulejos na África do Sul.
Voltando ao tema, dizia, e salvo melhor opinião, que a participação de movimentos de cidadãos nos processos eleitorais enriquece a Democracia, pelo que é saudável que surjam no processo eleitoral autárquico e só se lamenta que o art.º 151º da Constituição da República não permita que estes movimentos também concorram às legislativas. Importa contudo anotar que muitos dos movimentos que surgem em época eleitoral nada têm de independentes, afirmando-se sim contra os partidos e muito dependentes da política do “ser contra” o que, na maior parte das vezes, acaba por aniquilar a mais-valia que seria a sua participação verdadeiramente independente nos actos eleitorais. A maior parte das vezes estes movimentos mais não são que agremiações de ex-qualquer coisa: ex-militantes de partidos, ex-autarcas, ex-candidatos e tal como os “ex-Viriatos” morrem como nascem: sem fôlego, sem ideias, sem… futuro!
Já aqui, noutros artigos de opinião, se falou do dificuldade de operacionalizar este tipo de candidaturas pela blindagem e burocracia que a lei eleitoral impõe, mas há sempre a possibilidade de apoiar essa vontade independente através do recurso aos pequenos partidos sem representação parlamentar, desde que o façam com a garantia aos eleitores que após o acto eleitoral mantêm o respeito pelo voto recebido e serão oposição séria e credível.
Uma candidatura verdadeiramente independente dos partidos, de gente de créditos firmados e de princípios assumidos, de ideias claras e projecto de desenvolvimento para a cidade, com vontade de lutar por mais emprego, mais bem estar, mais cultura, mais educação e mais segurança representaria uma fresca brisa no pântano da partidocracia local. E se a essa frescura, acrescentasse a sensibilidade e pragmatismo feminino então teríamos um quadro colorido capaz de encantar muito eleitor viseense. A política local está prenhe de testosterona e é, na minha óptica, necessário e urgente que se renove permitindo que mais mulheres assumam lugar de destaque e cimeiro que não apenas os que lhe cabem por cota obrigatória por lei. A melhoria deverá ser conjunta, dos partidos procurando cativar na sociedade civil as mulheres que melhor competência e qualidade detenham e das viseenses procurando por mérito e trabalho conquistar essa posição. Seria interessante e promissor verificar nas listas às autárquicas de 2013 a 2ª posição ser ocupada por uma mulher ou melhor ainda, nas candidaturas que faltam afirmar ver inscrito no topo um nome feminino. Quantas mulheres se destacam ou têm destacado na política local? Quantas têm fugido à norma da cota? Imagino que aqui chegados já estejam a pensar que o contrário também é verdadeiro, que há quem se destaque em demasia e pela negativa mas uma vez mais estaríamos a desviar-nos da verdadeira essência do mérito politico e a pensar em minudências. Deixemos pois a Lúcia Silva em paz e como Fernando Ruas dixit que “somos um pouco como a Finlândia da Europa" falemos então de exemplos como Tarja Halonen, prova que “um povo educado elegerá dirigentes honestos e competentes. Estes escolherão os melhores assessores. Com um povo inculto acontece exactamente o inverso.” Liderança, capacidade de decisão, inflexibilidade, atitude, carácter e honestidade são algumas das características que muitas mulheres reúnem para poder singrar neste universo grotesco e machista da política local. Então, porque não uma candidatura de uma mulher independente?