21/03/2013

Política de merceeiro

Texto de opinião publicado na edição 575 de 21 de Março de 2013 do Jornal do Centro

A semana foi pródiga em ruins notícias e nem o fim-de-semana escapou à intranquilidade e incerteza permanente dos tempos de crise que parecem não ter fim à vista! A Europa vive (ou pelo menos assim parece) um estado de insanidade com uns Eurocratas que nunca se submeteram a uma eleição, do conforto climatizado dos seus sumptuosos gabinetes em Bruxelas a tomarem decisões inacreditáveis em nome de estados soberanos, numa completa indiferença pelas regras do jogo democrático e pelas leis comunitárias, acabando com a pouca credibilidade que ainda resta na moeda única do euro, infringindo mais um duro golpe no projecto europeu que cada vez mais se arrisca a ver a guerra regressar à sua História ou no mínimo a repetir o destino de Lenine: glorificar-se em formato múmia. Cá dentro, o País vive um estado de total debilidade com Vítor Gaspar a anunciar que Portugal vai ter mais um ano para perseguir o equilíbrio orçamental, o que na prática significa que vai ter um défice superior este ano (agora previsto em 5,5% do PIB) e com as novas previsões para a economia (com uma recessão agravada para este ano de 2,3%) e, pior ainda com o desemprego a poder atingir o pico dramático de 19% no final deste ano obrigando ainda a mais sacrifícios para 2014, o que diz bem do desgoverno a que chegámos e do desespero que temos pela frente. Aparentemente indiferente a tudo isto a política local vive de banalidades discutindo o nada, criando quezílias e enchendo de espuma as páginas diárias dos jornais.
O artificialismo do prolongamento no tempo deste confronto despropositado que leva a "pôr" o nome Viseu em tudo quanto exista na Região, cumpre dois objectivos: abocanhar tudo o que "mexe" na vizinhança do concelho de Viseu e banalizar o assunto para que acabe por cair por exaustão. Sabe-se que o carisma e a democracia convivem mal, até porque o problema do carisma é que termina com o líder. Uma organização feita à medida dum líder carismático (e aqui não está nenhum juízo de valor sobre as benfeitorias ou malfeitorias), tende a ser problemática para os seus sucessores, na medida em que não está feita para exprimir e acolher a diversidade e o pluralismo. As supostas fatalidades e cataclismos decorrentes da saída do líder enfrentam-se, não com a retórica dos "catequistas" do velho regime mas com a força das ideias, convicções, inteligência e no respeito pela diferença de opinião e, pelo que se tem lido por aí, a Fernando Ruas já parecem faltar as duas coisas, novas ideias e o respeito pelas opiniões alheias! De que adianta aos viseenses esta ou aquela designação se a isso não corresponder mais e melhores serviços, mais e melhores empregos, mais e melhor bem-estar? Ao invés de discutir “qualquer coisa” por não ter ideias de mais coisa nenhuma, Fernando Ruas devia dar a conhecer aos viseenses que projecto ainda tem neste meio ano que lhe resta para minorar os seus problemas e dar resposta às suas dificuldades. Devia dar a conhecer em verdade da real situação financeira da Autarquia e do que podemos esperar de futuro. Se a saúde financeira do concelho é tão boa como tantas vezes o refere porque não assume de forma transparente, isenta e credível a realização de uma auditoria externa e dá a conhecer à sociedade civil os dados desse escrutínio? Por exemplo, quanto gasta o seu gabinete, quanto custa anualmente o funicular e como se sustenta no futuro, qual o retorno da participação camarária na gestão dos parques industriais, qual o real valor dos empréstimos assumidos ou qual a situação do milhão de euros empatado no BPP? Se não há esqueletos no armário, como acredito que não haja, porque não abre o executivo as portas de par em par?
Para um autarca tido como modelo por diversas ocasiões, que enquanto os fundos comunitários escorreram para os cofres camarários fez obra de que certamente se orgulha e a que os viseenses não podem ficar indiferentes, porque não encerra o mandato em beleza dando a conhecer de forma clara tudo o que é feito do inquérito ao funcionário suspeito de ter falsificado documentos e desviado dezenas de milhares de euros dos cofres da autarquia, do que na realidade se passou no processo de contratação da filha do seu Vice, do que é feito da prometida Agrobeira ou porque diabo os candeeiros de iluminação pública do Rossio não dão como era suposto música ambiente?
Que planos ainda deixa para futuro além das duas praias fluviais em vez de uma que prometeu mas que só servirão para lazer dos viseenses se algum emprego ainda restar no concelho?
Ou será que já está a contar que José Junqueiro e o seu slogan de campanha resolvam tudo? Se assim é, lembro que o País ainda espera pelos 150 mil empregos de Sócrates. E a isso somou entretanto mais um milhão de desempregados!
Não são precisos mais políticos que nos deixam em tempos difíceis nem dos que nos colocam em tempos difíceis… agora precisamos é dos que nos ajudam em tempos difíceis!
Na gestão inteligente da urbe discutem-se ideias, na gestão corrente discute-se “qualquer coisa”… e isso nada acrescenta de esperança, confiança e progresso às gentes do concelho, nem contributo algum empresta para ajudar a Europa e Portugal a sair desta maldita crise!
Mas, como em tudo na vida já o meu saudoso avô me dizia: Certos políticos são como o vinho Dão ou Lafões, com o passar do tempo melhoram, apuram a qualidade, ganham profundidade! Outros, porém, mais vale ficarem com a rolha na boca… com o tempo azedam!

Obs: Foto de José Alfredo in Discursos Vol I de Fernando Ruas