23/05/2013

Aproxima-se a hora das decisões

Texto de opinião publicado na edição 584 de 23 de Maio de 2013 do Jornal do Centro
 
Aquando da campanha para a presidência dos Estados Unidos, em 1960, a campanha de Kennedy, referindo -se a Nixon, fez a seguinte pergunta aos cidadãos eleitores americanos: “Você compraria um carro em segunda mão a este homem?”. Nixon perdeu as eleições. Em ano eleitoral, com alguns dos candidatos já no terreno, o panorama a que se assiste é confrangedor no mínimo. Num dado instante revelam-se como o mais beato dos anjinhos para no instante seguinte, de forma altaneira, afirmarem o contrário de ontem, como se não tivessem nada a ver com o assunto, e pelo meio vão trocando mimos e deixando promessas ao povo, numas prédicas de pastores evangélicos acabados de chegar a uma nova cidade! Ontem um revelava-se assustado com a taxa de desemprego de 10,8%, resultante da governação do outro, e promete hoje reverter a taxa de 17,7% que deixa como herança na sua governação que assusta agora o outro. Em resumo, um e outro seriam cómicos não fosse a questão bem gravosa. O leitor, compraria um carro em segunda mão a algum deles?


Mais do que lembrar o passado, devemos reflectir sobre o presente e perspectivar o futuro de olhos na realidade do concelho de Viseu. Hoje, Viseu é um concelho de desenvolvimento intermédio, embora algumas características nos aproximem dos concelhos mais desenvolvidos tais como: taxa de crescimento demográfico; segurança; vias de comunicação; desenvolvimento concêntrico e organizado do espaço urbano. Por outro lado, a falta de emprego jovem e qualificado; o fraco desenvolvimento industrial; os impostos e fiscalidade municipal elevada; a reduzida aposta em políticas de dinamização cultural; a falta de desenvolvimento industrial; a introdução das portagens; a falta de ligação à rede ferroviária; a promoção da subsidiodependência e o elevado grau de dirigismo político da sociedade aproxima Viseu dos concelhos menos desenvolvidos. Viseu não se desenvolveu como poderia. Sim somos bons, muito bons, mas após anos e milhões de euros de fundo comunitários, deveríamos estar melhor preparados para o presente. O modelo de desenvolvimento seguido nas últimas décadas teve como resultado o regresso da emigração. Paradigma do subdesenvolvimento dos anos 60, no qual a emigração, de ontem tal como a de hoje, existe não por vontade própria mas pela mais simples necessidade e falta de oportunidades. Neste ponto a única alteração é a elevada qualificação académica de quem parte. Contudo, Viseu, não é uma ilha isolada no contexto nacional e teremos que estar dispostos a partilhar as nossas conquistas e derrotas. O cidadão viseense é um ser de acção, coragem, abnegação, acolhedor e capaz de perseguir um objectivo comum. Neste momento, particularmente difícil, os viseenses impelidos pelo poder municipal têm de se unir em torno de um projecto comum para o reforço da cidadania activa. As verdadeiras reformas só acontecem com a participação dos indivíduos, de todos os indivíduos. Para tal acontecer, será necessária uma liderança motivadora pelo exemplo. Como já afirmei, existem aspectos positivos que devem ser aproveitados, mas se queremos ser a capital de uma nova geração de políticas, ideias, cultura e pessoas temos de avançar.
Como sociedade, devemos apostar numa visão a longo prazo e enfrentar o futuro com vontade e determinação. Necessitamos de exigência, determinação, realismo, pragmatismo. Temos de desenvolver uma nova cultura social através do apoio à família, a instituições sociais e ao voluntariado. Importante também será reforçar a segurança através do diálogo saudável com a PSP e reforçar a capacidade da polícia municipal e a operacionalidade dos Bombeiros, bem como aproximar as aldeias da cidade através da melhoria da oferta de transportes públicos. Em termos macro temos de lançar a economia, a indústria, a cultura, apostar no turismo, incentivar a criação e produção local. Terá de existir uma mudança no modelo de desenvolvimento económico. É meu entender que os municípios não devem criar riqueza, no sentido de serem os principais empregadores, mas devem criar condições de atracção do investimento económico. Devem recompensar o mérito, a inovação, a responsabilidade social e ética. De igual modo, não podemos gerir um espaço urbano que se quer moderno usando a mentalidade e os instrumentos do passado. Neste ponto o município deve jogar ao ataque, tornar o concelho atractivo para que trabalhadores, estudantes, investidores, empresas, desenvolvam a sua actividade. A feira de S. Mateus deve ser um catalisador e montra das nossas potencialidades. Neste novo paradigma, deve-se dar prioridade ao investimento reprodutivo. Menos rotundas, mais apoio a PME (pequenas e médias empresas). Os agentes políticos terão de assumir um compromisso eleito-eleitor com base numa ética de responsabilidade de modo a acabar com a fuga aos compromissos. Salvo melhor opinião, o caminho terá que ser por aqui. O contrário é passarmos a vida a comprar carros em segunda mão aos vendedores errados!