09/05/2013

Oh, minha Rua Direita… nunca eu te vi tão torta!

Artigo de opinião publicado na ed.582 de 09 Maio 2013 do Jornal do Centro
 
Comprida e torta
Muita e muita porta
Travessas e ruelas
Quelhas, casas novas, casas velhas
Casebres, palacetes
Cântaros, tachos, panelas
Bombas, estalos, foguetes
Dedais, agulhas, alfinetes
Sementes de nabiça e rabanetes…
(Ricardo Sandro, Viseu 1973)

Bem, por onde começar, afinal de contas todas as histórias têm um início. Sabem como é… só pensamos na vida quando a sombra da morte se apodera da alma. Volta e meia, ainda recordo aquele profeta do passado, de feições serenas e sorriso terno, que ali marcava presença todos os dias à mesma hora, no mesmo recanto, de tanto encanto, da Rua Direita. Rua estreita, como todas as ruas da vida, que hoje não passa de depósito, devoluto, de memórias perdidas e, mesmo que não acreditem, posso garantir, do fundo das minhas recordações, que teve comércio, rostos, almas, milhares de histórias que atravessaram cada número de cada porta e jamais o facto de ser torta lhe conferiu defeito.
Hoje, de forma mais nítida, recordo aquele olhar breve e fugaz que desvendava, em poucos segundos, toda a história de uma vida… de olhos limpos que reflectiam a sua alma e nela era fácil perceber várias cicatrizes de amargura, de sacrifício, de felicidade e de alegria de viver, de tempos áureos. Nesse olhar resistia um pequeno brilho de esperança, o tom era ligeiro mas de esperança! Desnecessária era a crise, essa palavra malvada que inventaram para acabar com o pouco que ali restava. O pai tinha-lhe transmitido a incumbência de continuar, sem desistir, mas com honra, o negócio da família. E como dizem as leis do chão o que é prometido no leito, antes do último adeus, deve ser cumprido com a força do mundo. Mas as nuvens pesadas, de um futuro incerto, trouxeram as novas centralidades, deram à luz os “palácios do consumismo”. Os clientes fugiram, atraídos como mosquitos para os néon, para o comodismo do ar condicionado, para as promoções, cartões, cupões e milhões de tralhas, tarecos e restantes artefactos pós-modernos que não servem para mais nada que não seja agradar a pantomineiros ou gastar dinheiro que as caixas MB voluntariosamente cospem a troco de 4 dígitos. A partir desse dia, a calçada da rua, ficou cativa da solidão. E as almas que resistiram ficaram abandonadas tendo apenas por companhia as contas do senhor Mexia, o CEO da eléctrica, e de Zeinal, o Brava, dos Telefones, aos quais jamais haviam posto a vista em cima. O antigo funcionário, de fiel e zelosa alma, com mais de 20 anos de casa, foi incentivado a procurar lá fora o conforto que já nem para ele tirava da loja. Há momentos em que, na solidão da noite, ainda se culpa por não ter aproveitado a oportunidade, dos dourados idos de 90, para se modernizar como eles dizem lá na Associação. Ou de ter seguido os conselhos do filho formado em gestão em Coimbra. Mas outra interrogação logo surge, será que se o tivesse feito não teria apenas adiado a agonia… afinal de contas os vizinhos de comércio também pereceram, neste combate desigual. Ele sabe que está condenado pela doença, mas qual seria o prazer de morrer da cura? A culpa dele é curta, pensa para os seus botões, pois também ninguém o ouve quando de dedo em riste enumera os verdadeiros culpados. A esses pavões, de sapatos brilhantes, gravata garrida, gel no cabelo e peito depilado que cheios de chavões e soluções não souberam equilibrar as políticas. Tanta vez o seu velho pai, um conservador dos sete costados, lhe houvera dito que a vida é virtuosa para quem sabe conjugar equilíbrios. Volta e meia, em jeito de desafio, questiona os amigos: “Olhe, diga-me… do que nos valeu a modernidade da treta do Mercado 2 de Maio? E não ficámos sós! Podem não ver por aqui clientes mas venham cá à noite. Os agarrados andam aí todos. Vazios? Oh, amigo nestas coisas não há buracos negros… há sempre alguma coisa que os preenche! E a Policia, o que dizer da falta de autoridade. Andam aí, parecem uns extra terrestes a cavalgar nos brinquedos da miudagem. Só visto! Mas vão à vossa vida, não se prendam aqui a quem já tudo teve e hoje pouco lhe resta. Sabem, eu tenho esperança que um dia a cidade vai ser dos viseenses, tanto dos que a sentem, como dos que a vivem e ainda dos que do ar dela precisam para respirar. No dia seguinte ao caos seremos de novo capazes de redesenhar a alegria, o fervilhar de vida nesta Rua Direita, de perceber o erro do passado e apontar novos caminhos de futuro. Tenho filhos, todos formados e emigrados para a terra das oportunidades, sabe? Vou até onde a saúde me deixar aguentar isto… e quando no Rossio tivermos quem, com a cidade, seja capaz de pensar o comércio, a cultura, o turismo, o emprego e o desenvolvimento com equilíbrio, nesse dia talvez os obrigue na mesma promessa que fiz a meu pai. Tenho essa esperança, mas se assim não for, olhe, procurem-me no inferno… pior do que esta rua não deve ser!