31/10/2019

Mais palavras para quê? É um executivo pelas horas da agonia…

O método é mais batido que a bisca lambida. Foi assim com o Conselho Estratégico, fóruns e workshops do Viseu Primeiro, do Viseu Faz Bem, repetindo-se agora no Viseu 2030. Muita retórica, pouca concretização, muita comunicação, pouca realização, muita parra, pouca uva.

O que tem sobrado em marketing tem faltado em realidade, o que tem sobrado em despesa pública tem faltado em retorno económico, o que nesses eventos tem sobrado em hipocrisia tem faltado em verdade.
Em suma, tem sobrado éter e faltado oxigénio!

Se se recordam, por exemplo, do “Viseu Primeiro 2013/2017”, que visava “validar a visão de uma Cidade-Região competitiva e aberta ao mundo e uma comunidade inclusiva e a marcar o país”, logo na primeira reunião o autarca saudava a “a convergência estratégica e a vitalidade das forças-vivas de Viseu, um pulmão social, económico e científico para concretizar a visão que temos e dar um salto de desenvolvimento centrado nas pessoas, na economia e na cultura”.

O palavreado decorado pelo executivo, engrendado pelo marido da directora do Viseu Marca, propagandeado vezes sem conta, que apontava para “a concretização de políticas urbanas de eficiência e inovação energéticas e de atracção de indústrias criativas, assim como a criação de um plano anual de eventos de cultura, economia e marketing territorial, com dimensão nacional e internacional” culminou num mandato preenchido de foguetório, festas e festarolas com vinho e petiscos para os amigos, sendo que o resultado está à vista no agravamento muito significativo das condições económicas bem patente no Anuário Financeiro dos Municípios de 2018.


Viseu é o município de dimensão média nacional com pior equilíbrio orçamental e em termos de resultados económicos é o décimo com pior desempenho, com uma progressiva degradação dos resultados ao longo do mandato.

Agora, num exercício repetido de demagogia, o executivo volta a pedir “à sociedade civil viseense 99 ideias para o Viseu 2030”, mais um “fórum de reflexão, aberto à participação de toda a comunidade, com vista à projecção do desenvolvimento de Viseu no horizonte de uma década”.

Ignorando o facto de que, a julgar pelas noticias vindas recentemente a público, mesmo atendendo à presunção da inocência, dificilmente o PSD validará de novo este presidente de câmara para novo mandato, até pelo risco de ficar conhecido por ter perdido o bastião laranja, mais ignorando a hipótese provável do agora deputado laranja eleito pelo Distrito não querer deixar que isso aconteça, a aposta para uma década sem ser conhecida a estratégia e as políticas nacionais para esse mesmo período é uma mera perda de tempo e de energias.

É facto que não sendo difícil desenhar 99 ideias para o concelho e, salta logo à mente a remodelação da prisão não vá dar-se o caso de ser necessária no futuro, um brainstorming de políticas avulsas, valerá apenas por isso.

Também importa não ignorar que é pedido à sociedade civil o seu contributo de cidadania, o que se pressupõe gracioso, sendo que o coordenador e ex-presidente da agência que liderava a política de desenvolvimento regional, especialista em fundos comunitários, por certo que também estará no Viseu 2030 na mesma lógica pro-bono, nem um cêntimo cobrando ao orçamento dos viseenses.

A não ser assim, então por certo que todos os viseenses estarão disponíveis para cobrar por essas ideias e tendo aqui já deixado uma, ficando só 98 em falta, espero que não se esqueçam da minha modesta avença.

Por outro lado, hoje em dia, que sociedade civil capaz de apresentar propostas que acrescentem valor aceita facilmente aparecer na foto ao lado dos partidos e/ou candidatos locais?

A sociedade civil, até por vários movimentos mais ou menos tímidos que se vão organizando na cidade, já percebeu que não pode confiar as suas ideias a partidos mestres na apropriação de trabalho alheio. Uma alternativa longe tanto de partidos e políticos de carreira como do que eles representam parece ser o caminho que se desenha. É uma questão de tempo, eles já mexem.

Não precisamos de recuar ás narrativas de Calvino nas “cidades invisíveis” com o veneziano Marco Polo a descrever para o grande Kublai Khan as inumeráveis cidades que visitou em suas missões diplomáticas pelo império mongol nem no oposto de ir buscar o arquitecto italiano Stefano Boeri, que desenhou a primeira “cidade floresta” da China, em Liuzhou capaz de acomodar cerca de 30 mil pessoas, com casas, hotéis, escritórios, hospitais, escolas e tudo aquilo que uma cidade tradicional precisa e ser totalmente auto-sustentável mas, também não precisamos de mais do mesmo e portanto, também esta mesma lógica do executivo com mais esta “fuga para a frente” prova que a falta de ideias que eles próprios têm está exaurida e gasta.

Como dizia o filósofo, se não sabem porque é que perguntam?

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