08/10/2020

Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica - O concelho de Viseu - Opinião I.

Atento ao vazio de ideias e ao silêncio que se vive na região e em especial no concelho de Viseu sobre o importante Plano de Recuperação e Resiliência que será a linha orientadora dos investimentos, apoios e politicas económicas e de desenvolvimento nos próximos anos desafiei 4 "jovens" a pronunciarem-se sobre essa matéria. Fica claro que o concelho tem massa critica, que não precisa estar condicionado ao marasmo das ideias de betão de Fernando Ruas ou às redondas opiniões queijeiras de Jorge Coelho mas sem uma voz única de sociedade civil, associações, autarcas e deputados eleitos por Viseu não seremos ouvidos em Lisboa.

O que fica também claro, 46 anos depois do 25 de Abril, é a certeza instalada de que se essa opinião for assumida fica em risco o emprego, o negócio e o quotidiano de quem assim pensa. Essa é a razão pela qual aqui encontram dessa forma eco mas também pela esperança que me transmitem de que ainda seremos capazes de construir um novo concelho e um melhor País.   

Hoje deixo aqui a primeira opinião de um desses viseenses que gostam de o ser:


Há algum tempo disseram-me que Viseu tinha a característica dos eucaliptos, que é crescer, secando o que está
à volta. Na hora não concordei, mas a ideia ficou e estou cada vez mais convicto que há um fundo de razão, a região Dão-Lafões está a definhar há décadas, mas se o eucalipto é um invasor e é culpado do que seca, Viseu apenas tem a culpa de ser cúmplice nesta incapacidade de ser atrativo que de uma forma geral afeta todo o interior português. A nossa cidade em vez de se assumir como uma verdadeira capital regional, um pólo de desenvolvimento industrial, comercial, tecnológico, científico e cultural que poderia ser, só tem conseguido crescimento populacional, porque aproveita a centralidade administrativa e de serviços para atrair as pessoas dos concelhos à sua volta, já que o êxodo das pessoas em idade activa para o litoral, ou para o estrangeiro, afeta tanto Viseu, como os concelhos em volta. Este modelo além de se estar a esgotar, deixa-nos especialmente vulneráveis ao que aí vem, não só o comércio e os serviços estão mais susceptíveis a medidas restritivas no âmbito da pandemia, como uma nova vaga de emigração na nossa região pode levar a uma falta de massa crítica que leve ao esvaziamento de serviços administrativos, como os concelhos nossos vizinhos já foram sentindo ao longo dos anos, o que para Viseu seria fatal tal a preponderância que esses serviços têm na manutenção de uma classe média na cidade. Os sinais já estão aí, alguns há muitos anos, só para dar um exemplo, a ala oncológica do hospital não vai avançar. Por isso o Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), mais do que para outros, para nós é uma questão de sobrevivência, uma verdadeira última oportunidade de escapar a um ciclo vicioso de declínio igual ao que temos assistido desde há décadas à nossa volta. 
 Seria de esperar que estivéssemos a lutar como quem luta pela vida, infelizmente as 5 referências a Viseu em toda a “VISÃO ESTRATÉGICA PARA O PLANO DE RECUPERAÇÃO ECONÓMICA DE PORTUGAL 2020-2030” do António Costa Silva são de quem só leu uns panfletos do marketing do município e diz umas coisas sobre as cidades do futuro e as cidades inteligentes, nitidamente nunca andou no MUV, nem faz ideia da realidade. Das autoridades locais também não se conhece nenhum contributo, presumo que as autárquicas de 2021 são demasiado próximas para que se preocupem com coisas longínquas como a possibilidade dos nossos filhos terem futuro sem que tenham que sair da sua própria terra e abandonar a sua família. Estamos assim à espera que alguém em Lisboa, que não faz ideia do que é Viseu, decida o que é melhor para nós, ou que se lembre sequer de nós. Erro crasso. Pessoalmente não entro em exercícios de adivinhação do futuro, em especial quando estamos a entrar numa era de transformação dos modelos de trabalho e que está a mudar as antigas relações, com novas realidades já visíveis como termos pessoas a trabalhar no Brasil, em Zurique, ou em Londres, mas a residir permanentemente em Viseu aproveitando o clima de segurança e o custo de vida. Mas apesar da incerteza há fatores de base que permitirão fazer de Viseu uma região muito mais resiliente e preparada para o futuro seja ele qual for, nomeadamente aquelas que tornem Viseu uma cidade capaz de criar condições para fixar os jovens casais. Daí que a minha sugestão, de uma forma muito superficial, seja uma estratégia de fixação e atração de emprego que passariam por 3 eixos de investimento no quadro do PRR
  • Qualificação das pessoas: O foco agora é na criação de competências digitais, mas pessoalmente acho que a urgência em Viseu é outra. O IPV no seu estado actual, serve muito bem para prateleira dourada de muita gente, mas não serve a cidade nem a região. Mostra-se incapaz de atrair os melhores alunos e todos os anos permite que o melhor de cada geração vá estudar para Lisboa, Coimbra, ou Porto, e por lá ficam, de fora, também atrai pouca gente, com números de vagas por preencher abismais e a sensação que só surge quando já falharam a 3ª ou 4ª escolha. É urgente reformular completamente, ou idealmente voltar ao projecto de transformação do politécnico em universidade que foi esquecido. A ensino superior em Viseu tem que ser um polo de atração e fixação de talento como acontece em outras cidades como acontece em Braga, ou Aveiro. A melhoria da qualidade e visibilidade nos rankings, a reputação dos cursos ministrados em Viseu e uma muito maior ligação prática às empresas devem ser o objectivo dos projectos de investimento.
  • Condições de vida: com o foco na habitação a preços acessíveis, transportes condignos a ligar não só Viseu, mas toda a cintura industrial de Mangualde e Tondela e uma rede de creches e pré-escolar muito mais capaz. A habitação é uma área especialmente urgente, Viseu precisa de mais dinâmica no mercado de habitação, não é aceitável que se chegue a praticar rendas de 500€ por um T1, se juntarmos creche, transportes, e todas as despesas obrigatórias, expliquem-me como é que um jovem casal se fixa em Viseu com o salário médio de 800€ que se pratica? Sem permitir atropelos às regras de urbanismo urge tornar os processos de licenciamento mais simples e transparentes, já que actualmente o departamento de urbanismo da CMV atua como um garrote de complexidade, atrasos e oportunidades de corrupção que está a tornar o inicio de vida na nossa cidade quase impossível. O município também pode e deve actuar com projectos de construção e requalificação para arrendamento. 
  •  Dinamização económica: urge fomentar o empreendedorismo e a criação de emprego. A criação de espaços para a fixação de grandes empresas e as ligações rodoviárias e ferroviárias são as primeiras ideias que normalmente são referidas, e serão projectos importantes porque Viseu tem uma posição no eixo Aveiro-Europa e Bragança-Vila Real-Coimbra-Lisboa que o torna um centro logístico e um entreposto comercial por excelência já desde o tempo dos Romanos. Mas talvez tão importante fosse a criação de condições para que novos negócios e empresas pudessem florescer, com a criação de serviços com as valências típicas de um acelerador de negócios, integrado com o IPV, com a edificação de espaços físicos para a instalação imediata de empresas ou de escritórios. Acesso próximo a mentoria, apoio técnico e logístico e consultoria para a criação de projectos de acesso a fundos europeus.
Resumindo: simplificar, desagravar e desonerar a vida de quem cria empresas e empregos, para que seja fácil passar de uma boa ideia a um negócio com futuro. E por fim, embora não inserido no PRR, o facto de Viseu aplicar a derrama no valor máximo não é um convite simpático ao investimento, se algum dia vier a existir uma estratégia global para atrair investimento a competitividade fiscal terá que ser ponderada. Como disse, não adivinho o futuro, mas tenho a certeza que se lutarmos para que os fundos do Plano de Recuperação e Resiliência sejam aplicados na melhoria da qualificação, na melhoria da qualidade de vida dos residentes e em criar um ambiente favorável ao empreendedorismo, o nosso futuro será muito melhor. Se permitirmos que seja usado em projectos megalómanos, de criação de obras do regime para promoção pessoal, se permitirmos que a estratégia de “panem et circenses” com negócios ocultos de festas e festinhas continue em Viseu, seremos todos cúmplices da nossa decadência, depois não vale a pena chorar quando os nossos filhos estiverem a sair para a Suíça, já será tarde, a nossa oportunidade é agora.

RR

1 comentário:

Unknown disse...

Quem assim pensa, sabe muito! E, tem um grandes qualidades: coluna vertebral aliada ao não ter medo de perder emprego, por expressar as suas ideias,correndo o risco, ainda, de ver a sua integridade física em risco, face à almoços bem regados de quem devia dar o exemplo.
Força aí!