Outrora a cidade cingia-se a um velho burgo medieval, espartilhado por muralhas visigóticas e erigido de um afloramento granítico, destacando-se altaneiro por entre as serranias beirãs do âmago da terra mãe.
A névoa matinal caía densa e persistente
sobre a Rua Direita, salpicada por uma morrinha gélida que parecia tolher as
próprias pedras da vetusta calçada.
Arquejante, Albino endireitou-se por
momentos, as manápulas crespas e enrijecidas pelo frio agarradas ao cabo da pá
de valador, aspirando dolorosamente o ar gélido da manhã. Atarracado de corpo,
devia também muito pouco à inteligência e viera ao mundo mais despejado pela
natureza do que parido do ventre de uma mãe. Pesaroso, mirou com tristeza e revolta a
rudeza das palmas da mãos e os seus dedos grossos e nodosos e pensou na Maria
que já se queixava há tempo demais da sua aspereza, furtando-se esquiva aos
seus avanços.
Em redor o velho casario espreguiçava-se ainda meio dormente, despertando paulatinamente com crescente bulício madrugador. Cruzavam-se sons e cheiros, frases entrecortadas por saudações matinais e alguns passos ora apressados ora indolentes. Era o percutir na latoaria, o doce odor dos “Viriatos” franqueando as portas da padaria e até o tilintar dos copos no tasco da esquina, emborcados pela malta mais madrugadora.