08/09/2020

As famigeradas acessibilidades da Região de Viseu e a acção política local

É vulgar dizer-se que Viseu nasceu de um cruzamento de vias romanas e José Coelho chega a apontar uma dúzia delas. E fala-se nisso para mostrar a importância geográfica, geoestratégica até de Viseu no espaço ibérico. O facto é que o concelho e região de Viseu pela sua localização geográfica, privilegiada em relação ao restante território (proximidade espacial ao litoral e a Espanha) não encontra no seu território um conjunto de acessibilidade que corresponda aos padrões europeus. O IP3 é uma miséria há anos e vai continuar a ser mas de cara lavada com mais uns milhões em cima, as AE resultaram da adaptação vulgar dos ex-IP´s e Viseu cá continua ano após ano, a ser esta encruzilhada em que as vias servem mais para levar que trazer!

A oferta de boas acessibilidades, é condição essencial para que a região possa competir através de factores que advêm indirectamente das infraestruturas de comunicação são elas, a competitividade com redução dos custos de transporte, a redução de tempos de duração de viagem e a segurança dos viajante. Isto tudo com a devida manutenção ao piso, adequada sinalização, atenção à sinistralidade, ao volume de tráfego, a correção de traçados ou a construção de variantes às povoações. Todas estas obras são cobertas pelos impostos cobrados através do imposto de circulação e o adicional aos dos combustíveis, entre outros esbulhos ao bolso do contribuinte.

Na região os últimos grandes investimentos ocorreram com a construção da ligação da R 230 Tondela-Carregal do Sal, da A 24 de raiz (a 2ª autoestrada com menos tráfego do país) e da A 25 com a destruição parcial do IP 5, que culminou sem a oferta de uma via rápida sem custos para o utilizador (esmifrado pelas parcerias público privadas em que a ministra da (des)coesão ainda não arranjou uma solução). A região continua à espera da conclusão do IC 12 (Canas-Mangualde A 25), do IC 6 (Tábua-Seia), do IC 37 (Viseu-Seia) e da EN 329 (Vila Nova de Paiva-Moimenta) nada se sabe. Durante os últimos anos aos nossos governantes (incluindo os locais), nunca lhes passou pela cabeça a elaboração de um grande plano de beneficiação de estradas nacionais que visasse a eliminação de traçados sinuosos (as curvas que bordejam os vales dos rios), construção de viadutos para vencer desníveis, construção de variantes às povoações e  adição de faixas para veículos lentos. Muitos kilómetros de estrada beneficiariam deste efeito nomeadamente a EN 231 Viseu-Nelas, a EN 232 Mangualde-Gouveia, a EN 229 Sátão-Aguiar da Beira e a EN 228 Vouzela-Mortágua.

Recentemente a EN229 veio para os jornais, uma vez mais uma questão muito politizada, com a inútil demissão de responsabilidades por parte de todos os agentes políticos, autarcas, deputados eleitos pelo círculo eleitoral, com o contributo involuntário e invisível, da passividade das gentes locais. A desculpa da falta de fundos, mesmo quando o advento dos fundos comunitários jorravam dinheiro para a construção de estradas, os senhores decisores nunca se lembraram de amealhar para mandar efectuar e efectivar estudos de traçados prévios. Para acabar de vez com a chaga, para acabar com uma estrada com elevado volume de tráfego, os atravessamentos de núcleos urbanos (que cresceram exponencialmente nas últimas décadas e que não são qualificados no que concerne ao espaço público), com geometria de via, herdada do início século passado e não adaptada aos veículos que permitem circular em alta velocidade.

A EN229 é também ela o melhor retrato da qualidade dos politicos locais, muito poderosos no Rossio mas completamente ignorados no Terreiro do Paço. Já teve promessas de 4 faixas do PS, Junqueiro pois então quem havia de ser, de protocolos laranja de Ruas a Almeida Henriques e no final, é agora alvo de mais um contrato compromisso que logo que passem as eleições é um contrato pró lixo!

A EN 229 é um exemplo exímio do que não deve ser uma via de comunicação, com a agravante de ser um eixo de ligação entre Viseu e o Alto douro Vinhateiro com ligação, a Aguiar da Beira, Sernancelhe, Penedono e São João da Pesqueira, e parte dos percursos decididos pelos condutores que vêm de Moimenta da Beira e Vila Nova de Paiva. Ademais o traçado entre o Sátão e Viseu é suporte das deslocações pendulares diárias e dos veículos de socorro que se deslocam para o hospital de Viseu. Anos e anos de espera, discussão nos gabinetes, passar de culpas, desresponsabilização de obrigatoriedades, encontrou-se soluções amputadas carregadas de polémica, com uma tímida contestação logo tomada por interesses partidários para luta política e na busca de protagonismo. A polémica centra-se no concelho de Viseu, na freguesia de Rio de Loba, com a preconização de uma solução viária, um troço variante para servir com uma única premissa a zona industrial de Mundão e requalificação do restante troço com a contribuição da Câmara Municipal de Viseu e do Sátão. Uma ligação que tem como ponto de partida uma curva da antiga IP 5, um futuro nó de acesso que atravessará o Vale de Fachas, tudo isto já representado no Plano Director Municipal. (ver figura). Este “vale” possui uma importante reserva de subterrânea de água com captações para abastecimento de água potável aos residentes da freguesia, como dois reservatórios de Água dos Serviços Municipalizados, mancha florestal consistente com espaços agrícolas e percurso pedestre (grande rota de mamaltar de Fachas) instalações desportivas sem esquecer o património arqueológico. Também se prevê rasgar o tecido urbano do centro de Rio de Loba, com ligação à circular de Viseu (ver fígura) uma solução com impactos negativos como a poluição ou o ruído. A elaboração do plano director municipal, oculta-se, não se representa graficamente as restrições e condicionantes ambientais e físicas que o extenso território possui, para evitar chatices e aborrecimentos prolongados a algum técnico. Denota-se também um desconhecimento crónico do território e suas particularidades que só se vislumbra com visitas aos locais. Assim legitima-se uma solução com impactos ambientais incalculáveis, sem a exploração de traçados alternativos, respeitando as condicionantes que o território possui, que não prejudique os aglomerados urbanos e que ofereça mais valias já referidas atrás. O edil e restante vereação local escusa-se e omite todas estas atitudes para legitimar outras apostas (como o parque industrial de Mundão), só se preocupa com a sua imagem e com jogo político de passa culpas nem questiona ou negoceia alternativas com a Infraestruturas de Portugal que se serviu do pré traçado para o desenho rigoroso. Deixo aqui um humilde e franco contributo, não muito rigoroso (com possíveis alternativas) com prováveis debilidades ou inconsistências (já que quem contesta também não apresenta alternativas).

 

Foram tidos em conta os seguintes parâmetros:

     Afastamento de localidades;

     Possibilidade de valorização de infraestruturas industriais e logísticas com a aproximação a estas;

     Minimização de impactos negativos na estrutura ecológica, agrícola, linhas de água e zonas de erosão;

     Possibilidade de alargamento futuro no número de faixas de rodagem;

     Desvio de fluxos de trânsito provenientes de outras zonas geográficas.

 

Alternativa 1   

Permite um acesso qualificado ao aeródromo e a Lordosa, permite desviar o trânsito viário para a A24, gozaria de uma orografia favorável com pouco impacto na estrutura ecológica municipal, mas necessitaria de protecção devido à presença de uma cabeceira de uma linha de água. O Traçado inicia-se e aproveitaria numa estrada municipal projectada no Plano director municipal, e alguns caminhos rurais, o traçado é mais extenso, uma verdadeira alternativa à parte mais saturada da EN 229, possibilita um alargamento futuro de vias e maior velocidade praticada. 




Alternativa 2

Permite um acesso qualificado à zona industrial de Mundão, com orografia um pouco desfavorável mais a norte, com impacto na estrutura agrícola que pode ser contrariado pela construção de um viaduto, mas com impacto paisagístico (um possível motivo de satisfação pela população local). O traçado inicia-se e aproveitaria numa estrada municipal projectada no Plano director municipal, o traçado é menos extenso, desvia o trânsito dos aglomerados urbanos da EN 229, a velocidade praticada seria um pouco menor face à alternativa 1.

 


 

Todas estas alternativas implicam um aumento de trânsito na radial de Santiago, mas aproxima os habitantes da quinta do Catavejo e do bairro da Torre ao Centro da Cidade e a qualificação do espaço público da EN 229 na zona de Travassós e da Quinta de São João da Carreira, que tão bem necessita e anseiam os moradores.







Para ilustrar o raciocínio exponho atrás as condicionantes que foram tidas em conta, para mostrar como se deve exercer o desígnio público de transparência para o bem de todos e se possa discutir abertamente. Valem o que valem e também não duvido que quem as devia valorizar as ignora. Pérolas a porcos, dizem-me alguns. Talvez, mas ainda há muitos e muitos e tantos e tantos viseenses que merecem melhor, melhores vias de comunicação e melhores vidas para si e para as gerações vindouras.