08/04/2021

O blog feito pelos leitores

         Outrora a cidade cingia-se a um velho burgo medieval, espartilhado por muralhas visigóticas e erigido de um afloramento granítico, destacando-se altaneiro por entre as serranias beirãs do âmago da terra mãe.

A névoa matinal caía densa e persistente sobre a Rua Direita, salpicada por uma morrinha gélida que parecia tolher as próprias pedras da vetusta calçada.   

Arquejante, Albino endireitou-se por momentos, as manápulas crespas e enrijecidas pelo frio agarradas ao cabo da pá de valador, aspirando dolorosamente o ar gélido da manhã. Atarracado de corpo, devia também muito pouco à inteligência e viera ao mundo mais despejado pela natureza do que parido do ventre de uma mãe.  Pesaroso, mirou com tristeza e revolta a rudeza das palmas da mãos e os seus dedos grossos e nodosos e pensou na Maria que já se queixava há tempo demais da sua aspereza, furtando-se esquiva aos seus avanços.

Em redor o velho casario espreguiçava-se ainda meio dormente, despertando paulatinamente com crescente bulício madrugador. Cruzavam-se sons e cheiros, frases entrecortadas por saudações matinais e alguns passos ora apressados ora indolentes. Era o percutir na latoaria, o doce odor dos “Viriatos” franqueando as portas da padaria e até o tilintar dos copos no tasco da esquina, emborcados pela malta mais madrugadora.

Alheio a tudo e já atolado até aos joelhos numa lama nauseabunda que surgira não se sabe de onde depois de levantadas a primeira meia dúzia de lagetas de granito que capeavam o velho canal de esgotos, Albino repetidamente cravava nela a sua pá, num misto de raiva e desespero.  Em surdina, maldizia o arquitecto romano que engendrara tamanha maquinação enquanto zurzia à chicotada os costados de algum seu antepassado, pobre escravo da raça ibérica. Não tinha mais dúvidas. Deuses e forças da natureza haviam-se aliado numa cruzada implacável contra ele, servente empossado valador do quadro, nas profundezas da complexa teia hierárquica dos serviços municipalizados da cidade.

Entretanto a névoa ia-se levantando vagarosa, tal como a irritante morrinha minguando, abrindo agora alas à intromissão de uns tímidos raios solares.  A lama misturara-se com o esgoto, endurecendo e produzindo um cheiro pútrido e nauseabundo, empestando a atmosfera metros e metros em seu redor. Zombeteira, a freguesia assomava avinhada à porta do tasco, assistindo numa crescente onda de gozo desenfreado e mal orquestrado pela Miquelina, mulher da “vida artística”, ao esforço inglório do valador em desatar aquele malfadado nó cego do destino.

Nisto, chega o encarregado da brigada, o considerado Sr. Sá, austero zelador dos fontanários da cidade e rede de esgotos públicos, inquirindo meio furibundo :

-  Então meu malandro, já desencravaste o “alqueduto”? Olha que a sanita do consultório do Dr. V. já está pelas bordas!

Albino, tremia acometido de suores frios. Os acontecimentos já ultrapassavam largamente o seu modesto entendimento.

- E o MC. ?!  Já cá esteve a inspecionar a conduta? Fuzilava novamente o Sr. Sá.

Albino ignorava quem era o MC. Mas, que lhe importava o MC.? O Sr. Sá era a sumidade em pessoa, mandatado pelo próprios desígnios divinos e até o Presidente da Câmara, esse ilustre desconhecido de quem ignorava o próprio nome não tinha qualquer voto na matéria. Temeroso, redarguiu num súbito assomo de coragem :

- Mas a trampa não anda nem desanda! Se calhar é preciso levantar mais algumas pedras? Se o Xico cá viesse ajudar com a alavanca de ferro …

- Cala-te meu quadrúpede, filho de uma rameira da Rua Escura - verociferava-lhe tonitruante o Sr. Sá, para logo de seguida levar desesperado as mãos à cabeça – E o MC! Que chega aí não tarda nada!?

Num misto de respeito e terror quase supersticioso, baixou as próprias orelhas num resquício de instintos caninos e rilhando a dentadura apontou com a ponta da pá à cloaca imunda, fonte de todos as desditas que sobre ele despencavam naquela manhã de inverno.

Rua Direita abaixo, aproximou-se o Engenheiro MC, a gabardine bege e o boné de feltro castanho, reforçando o seu ar discreto e distinto.

Abeirando-se da escavação, inquiriu franzindo ligeiramente os sobrolhos com ar preocupado :

- Bom dia – então qual é o problema?

Albino levantou os olhos, mirando estupefacto o recém-chegado. Parecia-lhe irreal a súbita aparição daquela figura, como a barrar-lhe por completo as ínfimas probabilidades de escapatória do inferno em que se via mergulhado.

- Já agora?! Mas quem és tu?!

- Eu sou o MC – respondeu o engenheiro à queima-roupa, quiçá surpreendido pela ignorância do valador.

- Ai tu é que és o MC. !? Estás  f…..  pá ! Já cá esteve o Sr. Sá três vezes à tua procura !!!

 (Recebido por email - autor sob pseudónimo Trojan Horse)

 

 

 

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